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O meu amor por Amália, por aquilo que Amália acaba por representar para mim (e aquilo que dela em mim reconheço), não foi imediato: foi uma aprendizagem que acompanhou o meu próprio crescimento pessoal. Como bom adolescente (mesmo um mais introvertido e sensível), afirmar-me individualmente passou por rejeitar os valores e os ídolos da geração dos meus pais, menorizar os seus heróis e as suas formas de expressão. Lembro-me de uma pergunta que o meu pai me fez aí pelos meus 13 anos, quando tinha acabado de comprar o Ray of Light da Madonna: “Achas que a Madonna canta melhor do que a Amália Rodrigues? É que nem lhe chega aos calcanhares!”. E lembro-me de pensar com desdém: “Mas quem é que quer saber da Amália? Daqui a uns anos, já ninguém se lembra dela”. Estava enganado, claro, e creio que já na altura o sabia. Por isso, encolhi os ombros com ar de enfado e nada disse.

Cabe dizer que, por esta altura, morreu a minha mãe, de doença prolongada. As minhas avós rendiam-se, semana após semana, para vir do campo tomar conta dela e de mim na cidade. Na escola e na rua onde vivia, sofria abusos diários que maldiziam uma homossexualidade que nem eu conhecia ainda. A minha feminilidade de menino inteligente e sensível era como um mau agouro para o que haveria de vir. Mais tarde, Amália integrou o grupo de musas que me ajudaram a resgatar a feminilidade desse lugar de tragédia e vergonha, e a encontrar força na sua expressão. E a voz… uma voz capaz de tudo, ao mesmo tempo negra, sensual, vulnerável e firme. Que tanto me dava consolo, como um colo de mãe, como me permitia que a empunhasse como bandeira desfraldada ou que com ela me cobrisse como mortalha. A minha experiência desse carácter de tudo sentir com intensidade e sem escusas, através da sua música, ajudou-me a dar sentido às minhas contradições e a dar cara às minhas inquietudes. De certa forma, Amália tornou-se a encarregada do meu arquivo sentimental. Pelo menos, na sua secção mais sombria.

À medida que fui conhecendo melhor quem foi essa mulher e criando a minha narrativa íntima sobre as suas experiências e formas de experimentar as emoções, ficava preso numa canção após outra – não muitas, mas muito tempo cada uma. Às vezes, faziam-me sentir coisas para as quais não encontrava nome. Fatalismo, a tristeza inerente a todas as coisas, como a casca interna do mundo, a sua segunda pele. Em Amália, também a alegria é tristeza. É uma alegria consciente da sua finitude, uma alegria que vive e ressoa nas saudades antecipadas do momento presente. A tristeza subjaz a tudo, é a lente com que se interpreta o mundo, a sua matriz. Este lugar existia e existe ainda em mim. Com Amália, encontro companhia quando lá vou.

 Lila Fadista é vocalista do projecto musical Fado Bicha. Gosta muito do cheiro dos livros novos. Não gosta nada do barulho das motas. Tem 33 anos e vive em Lisboa.

Ilustração de André Murraças.

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