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Anos 80. Eu era um miúdo suburbano, enclausurado num mundo cinzento, refém das minhas inseguranças e muito sozinho. Era aquela solidão interior que se sente mesmo quando muitos nos rodeiam.

Talvez, nos alvores dessa minha adolescência, eu nem sequer me conhecesse. Sentia-me perdido. Olhava para os outros. Olhava para mim. Não me reconhecia em ninguém. Eu não era como ninguém que eu conhecia.

A adolescência pode ser um tempo cruel. Passamos horas à frente do espelho à procura de respostas. Inventamos angústias. Moldamo-nos na mesma massa da realidade informe que nos calhou em sorte. E vamo-nos aí tornando únicos, cada um à medida da sua personalidade. E, também, à medida da sua própria circunstância. O meu problema, provavelmente como o de muitos miúdos como eu naquela época (sei-o agora), não era tornar-me num eu único. Porque isso já eu era. O meu problema era esbater a minha diferença naquela massa. Ser eu. Ou ser como os outros?

A realidade do meu quotidiano servia-me a régua e o esquadro, a bússola e o compasso, pelo qual haveria de formatar a minha vida. Mas ídolos como o António Variações estilhaçavam-me essa realidade com um outro mundo feito de outros mundos. Feito de novas probabilidades.

Na primeira vez que vi um teledisco do António Variações (o Estou Além), o que senti foi literalmente a sensação de um primeiro contacto com um extraterrestre. Que cantou para mim. E que cantando assim, dançando assim, mostrando-se assim, me mostrou que havia muito mais mundo do que o mundo ao qual eu me tentava desesperadamente adaptar.

Não precisava afinal de tentar gostar assim tanto dos Dire Straits, do Bryan Adams, dos Scorpions e do resto das bandas do Rock FM que tinha de engolir nas festas do pessoal do liceu. Tinha um novo artista Pop para mim em Portugal. E tinha também um ídolo para mim.

E, com ele, vieram outras coisas. Talvez o mais importante: o choque do medo. É que, nessa altura da minha vida, eu ainda estava na idade dos sonhos. Ainda não distinguia bem a esperança da ilusão.

E o medo bateu com estrondo.

Um dia, num dia de calor em Junho, chegou-me no quiosque ao pé de casa a notícia nos cabeçalhos dos jornais: o António Variações tinha morrido. Sei que devo ter feito um qualquer desabafo de tristeza. Já não me lembro bem. Mas recordo-me ainda como se fosse agora do que ouvi de seguida: uma piada inenarrável a escarnecer da morte de um maricas. E um início de conversa cruel entre outros circunstantes acerca da sua misteriosa doença.

E, para minha vergonha, eu fingi que achei piada.

Quando voltei costas com a Bravo e o Sete na mão, já sozinho, caí em mim. E senti-me tal como Pedro ao ouvir o cantar do galo pela terceira vez. Traíra o meu ídolo secreto num quiosque do meu bairro.

Sei hoje que, nessa altura, não fui um cobarde. Fui apenas um miúdo com 14 anos. Com medo.

Mas, naquela altura, eu não o sabia. Fui crescendo com esse medo. Domando-me. Ganhando negociadamente cada centímetro de liberdade. Fazendo da noite a vingança dos meus dias. E fingindo para mim uma esperteza impossível: como se fosse possível separar uma vida em duas. Uma vida como as vidas dos outros. E outra vida só minha e sem culpas, sem remorsos, onde todas as emoções que me estavam proibidas durante o dia poderiam sempre ser a promessa da noite seguinte.
Passados mais de trinta anos, agora, finalmente, uma só vida. A paz comigo mesmo.
E com António Variações.

A quem, afinal, nunca precisarei de pedir desculpas.

Carlos Reis vive em Lisboa. É advogado e joga rugby nos tempos livres.

Ilustração de André Murraças.

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