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Sete de Janeiro de 1987. Jantar terminado, cozinha arrumada e a família preparada para ver um filme português na televisão em prime time. Nove horinhas da noite, apenas. Não um dos antigos – “Chapéus há muitos, seu palerma!” – mas um filme recente, com apenas três anos. Sucesso de bilheteira e, melhor ainda, dizia-se, romance tórrido com gaja boa. Tudo isto eram condições excepcionais para um filme português e, percebo hoje, a expectativa, a publicidade e o “passa palavra” devem ter sido imensos.

Mas não era só isso. O romance tórrido heterossexual não era entre putos mas sim entre trintões desempoeirados. A actriz em causa era uma figura pública imensamente conhecida: locutora, apresentadora de telejornais e de concursos, apresentadora do Festival da Canção, participante na primeira telenovela portuguesa, tudo o que se queira, como se dizia ao tempo. Mas outros atributos tinham-lhe aberto também outro tipo de portas. Pertencente a uma classe social média alta, e bonita, tinha sido paixoneta de Marcelo Rebelo de Sousa no Liceu Pedro Nunes e as portas da Lisboa elitista estavam para si abertas. No mesmo ano em que sai o filme, representa Portugal no espectáculo comemorativo da adesão à CEE, em Estrasburgo, e é escolhida como uma das 25 mulheres a representar Portugal pela condição feminina em Bruxelas. Talvez ainda mais do que uma Catarina Furtado no seu tempo, portanto, visto poucas mulheres à época conjugarem notoriedade e respeito públicos. Com 20 anos à época da transmissão televisiva, residente fora de Lisboa e pertencente a uma classe média, eu tinha uma noção vaga de tudo isto. No entanto, são detalhes fundamentais para enquadrar a pertença desta interpretação num arquivo LGBT.

Finalmente, um dos grandes trunfos do filme era também um aspecto que todos sabiam e ninguém dizia publicamente: constava que a apresentadora boa e sexy era lésbica. Como sabemos, isso não era um problema para o olhar heterossexual masculino, aquele para o qual todo o cinema foi feito durante décadas. Antes pelo contrário, isso ainda a fazia mais boa e mais sexy. Pois, para que serve uma lésbica senão para ser fodida pelo gajo certo? Mas, curiosamente, não aqui. O estatuto e a postura sociais de Zanatti, que, embora não assumida, não apresentava nenhum companheiro à sociedade e, ocasionalmente, era fotografada com bonitas mulheres que se presumiam serem namoradas (Lara Li, onde andas tu?), não permitiam uma assimilação heterossexual. Por mais que Álvaro fodesse Ana em cima do capot vermelho daquele carro, por mais loura que ela fosse, por mais curto que fosse o seu vestido travado, por mais que reclinasse para trás a sua cabeça, por mais que o enleasse nas suas lindas pernas de meias de nylon e saltos altos, nada disto mostraria senão o que me causou enorme orgulho: sim, sou linda e sexy, mas sou lésbica. Isto é apenas uma encenação à vossa medida, tudo é apenas uma encenação à vossa medida, na qual podemos até ser perfeitas, mas somos lésbicas. Assim, nesta complexidade de olhares, estava criada uma cena emancipadora e pacificadora para a sociedade portuguesa mas também uma cena erótica mítica para o cinema português, como Sharon Stone criaria mais tarde no cinema mundial.

Termino com uma nota pessoal, pois todo o arquivo é um arquivo de emoções pessoais. O orgulho que senti foi também o resultado de um reconhecimento familiar que deu frutos mais tarde: durante a transmissão televisiva do filme, o meu pai foi tartamudeando umas palavras, respeitosas, referindo o seu lesbianismo sem o mencionar, reconhecendo o seu trabalho e a sua sensualidade. É esse olhar de respeito que guardo dele na única, tímida e elusiva conversa que tivemos sobre o assunto do meu lesbianismo, pouco antes de ele falecer.

Obrigada, Ana. Representando muitas das contradições e limites da sociedade portuguesa das últimas décadas, as lésbicas brancas – urbanas e de classe média ou superior – devem-lhe uma progressiva visibilidade. Quero acreditar que o seu trabalho recente e futuro poderá abrir as portas para ainda muitas mais.

Anabela Rocha vive no Meco e é amante do sossego e da natureza.

Ilustração de André Murraças.

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