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Falar de Simone. Falar de Simone não é simplesmente falar da mulher que esteve à frente dos poemas, que deu a voz aos poetas. Falar de Simone não é apenas falar de Desfolhada e de Sol de Inverno. Falar de Simone também é falar de liberdade, de expressão, de feminismo, de solidão, de sofrimento e de amor. Mil e quinhentos caracteres nunca serão suficientes para falar de uma das precursoras da liberdade num país chamado Portugal.

Poderia dizer que tudo começou quando eu era um menino pequenino. Mas não, nessa altura o nome Simone era-me identificado apenas pela mulher que canta a música do “quem faz um filho, fá-lo por gosto”.

É na minha adolescência que conheço Simone, quando assinalou 58 anos de carreira. Corria no São Luiz um espectáculo para a celebração e foi chocante o impacto inicial, pois sempre pensei que a força e a singularidade que Simone dá às canções fosse apenas um elogio rasgado para encher o ego da Diva. Mas não. Simone não era a Diva com tiques de vedeta. Pareceu-me naquele dia ser uma mulher nervosa, com alguma insegurança, pois a sala estava cheia e o público ovacionava aquela que era, e é, a lenda viva portuguesa.

Gosto de artistas que conseguem ultrapassar a barreira de serem simplesmente cantores. Fascina-me quando passam a ser intérpretes, quando a emoção e a interpretação é posta à prova. Naquele dia, desde a primeira música (Vida, do espectáculo Maldita Cocaína) até à final Desfolhada, ao meu redor estavam três gerações, de jovens, de adultos e de maduros a chorar pela transmissão de mensagem que naquele dia Simone nos fez passar.

Simone, para mim, não foi apenas uma pessoa que idolatro. Foi uma precursora para o meu conhecimento e desenvolvimento como pessoa e artista. Foi a partir dela que aprendi a cantar em português (pois sinto que, se não fosse sua música, a minha ignorância ainda estava apenas e somente na língua inglesa). Tive conhecimento dos grandes poetas e músicos (Ary dos Santos, Nuno Nazareth, Eugénio de Andrade, Fernando Tordo, Nóbrega e Sousa, etc.) e ainda penso que a sua forma de interpretar as canções reflecte-se muito na forma como eu canto também hoje em dia – isso é um facto.

Para eu chegar à Symone, à minha Symone, houve artistas e referências que construíram a personagem que hoje vos dou a conhecer. O teatro deu-me a vontade de dramatizar. Tenho veia de artista e tenho um outro lado muito sentimentalista, que se conjuga muito bem com a solidão. Ainda estou para descobrir se foi isso, essa solidão, que me encontrou com a pessoa que é Simone de Oliveira. Ou se foi a Simone, simplesmente, que deu nome às minhas angústias e aos meus medos tornando a minha solidão em algo que sempre pude e posso aproveitar na minha personagem que é Symone de Lá Dragma.

Acho que Simone tem o peso que tem, de importância como pessoa, por aquilo que sempre foi. Vale a pena relembrar que foi uma pessoa muito à frente do seu tempo e que tudo começou em plena ditadura salazarista quando cantou a Desfolhada, em 1969, e de voz viva proclama “quem faz um filho, fá-lo por gosto”. Simone perdeu a voz nesse mesmo ano e voltou em 1973 – com aquele que, na minha opinião, é um dos melhores, se não o melhor, temas de Simone: Apenas o meu Povo, um poema de José Carlos Ary dos Santos que é quase um hino, uma canção que fala de alguém que não se conforma, de indignação. É um tema que me é muito pessoal, pois identifico-me muito com as palavras proferidas. Apenas o meu Povo é a reivindicação dos “nãos”, dos bullyings diários, dos amores não correspondidos e de tantas outras coisas com as quais eu me consigo identificar. Quem conhece o tema, sabe bem do que estou a falar.

Simone é também uma activista no que toca aos direitos da mulher, teve dois cancros, foi vítima de violência doméstica e educou dois filhos sozinha. É uma figura pública que, desde cedo, apoiou e sempre demonstrou afectos para com a comunidade LGBT.

Simone. Sinal de vida, de liberdade, de amor e de celebração, será para sempre a mulher com a força de mil e uma, será a voz de tantas “Simones” que por aí andam, será relembrada pela força e a forma espontânea de ser.

Enquanto eu cá estiver, e enquanto puder, Simone será sempre relembrada aos que estão e aos que virão. Pela minha voz, eu irei dar nome aos poetas, às canções e à artista. Uma ovação não será a suficiente para agradecer a Simone o marco que esta teve e tem na minha vida e no meu dia-a-dia.

Obrigado Simone, por ser, por vezes, a voz de Portugal.

Symone Lá Dragma (Simão Telles) é Drag Queen. Vive em Santarém e não gosta do sol nem do calor. Gosta da noite e da solidão.

Ilustração de André Murraças.

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