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Tinha 12 anos quando foi anulado o casamento de Guilherme de Melo. O Guilherme tinha então 30 anos e a família era amiga da minha. A revelação caiu como uma bomba em Lourenço Marques. Como era hábito, os jornais publicavam placards junto aos cafés mais movimentados da cidade (o Continental e o Scala) sempre que uma notícia de última hora o justificava. Foi o que aconteceu a meio da tarde daquele dia de 1961: a Santa Sé dissolvera e anulara, por non consummatum, o casamento do influente jornalista. Nunca esqueci as ondas de choque que o facto provocou.

Embora fosse um miúdo, estava consciente da minha condição homossexual. À época, por força da diferença de idades, as relações com o Guilherme eram nulas: uns vagos cumprimentos em festas de aniversário e pouco mais. Mas, a partir daquele dia, o meu interesse aumentou. Lembrava-me de histórias nebulosas, comentadas aqui e ali, bem como de conversas com uma das irmãs do Guilherme (a propósito de me saber diferente). Excitando a imaginação de todos, a Casa dos Rapazes era a minha preferida. Que casa era essa? Era uma instituição informal que acolhia rapazes sem família e outros a quem chamaríamos hoje problemáticos. Acabou por pressões junto das autoridades, em especial as movidas pela mulher com quem o Guilherme ainda estava casado. E foi por esse motivo, soube muito mais tarde, que a decisão de pôr fim ao casamento foi tomada. O acidente de carro em que o Guilherme quase perdeu a vida era outro episódio que alimentava o gossip. Afinal, era ela que ia ao volante…

Os detalhes vieram com a nossa amizade, cimentada a partir de 1967, ano em que comecei a ser convidado para as famosas festas de sábado à noite. Em Lourenço Marques, a comunidade homossexual tinha por hábito juntar-se nos parties de fim-de-semana. A eclosão da guerra colonial encheu a cidade de militares em trânsito para o Norte, e uma grande parte desses rapazes alinhou com a transgressão. Por volta de quarta-feira, o Guilherme perguntava aos mais próximos o que preferiam para o party dessa semana: “Fuzos? Páras? Comandos? Polícias militares?…”. E lá eram convidados catorze ou quinze centuriões dispostos a tudo. Foi a época de ouro da liberdade sexual. Os rótulos não tinham minado a itinerância das identidades, e em Moçambique, que fica do outro lado do mundo, os mancebos portugueses descobriam que há muitas moradas no céu.

O que fez do Guilherme uma figura única foi o à-vontade com que, a partir de 1961, numa sociedade fechada como era Lourenço Marques, impôs as suas escolhas à opinião pública. Para adolescentes como eu, foi um exemplo. Saber que aquele homem, um jornalista muito influente, tão depressa estava numa esplanada com “um amante”, sem disfarçar a natureza da relação entre ambos, como era convidado para as recepções da Ponta Vermelha, era a prova provada de que podíamos romper a normatividade.

Quando o Guilherme veio para Portugal, em Outubro de 1974, já essas pontes tinham sido queimadas. Mas se há precursores da cultura gay em Portugal, ele é um deles.

[Guilherme de Melo, 1931-2013, foi jornalista e escritor. Publicou nove romances, dois volumes de contos, dois ensaios sobre homossexualidade, uma compilação de reportagens sobre a guerra colonial, um livro de poesia e a biografia romanceada de Gungunhana.]

Eduardo Pitta, poeta e escritor, 68 anos, vive há 46 anos com o mesmo homem (com quem casou em 2010), gosta de viajar. 

Ilustração de André Murraças.

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