zaza
Querida Zazá, admiro-te desde que te conheci. Brevemente. Nunca te pude conhecer como queria. Infelizmente, a vida não nos permitiu cruzar-nos quando estiveste mais perto. Era uma miúda. Chegaste a Lisboa, mal tinha eu acabado de fazer 14 anos. Já te tinha visto na televisão. Lembro-me tanto das tuas plumas rosa como do exuberante fato, penso que verde-escuro, da Belle Dominique. Devia ser uma reportagem do Rivoli, ainda. E acho que na televisão da minha avó… Pormenores.

Ouvi o Filipe La Féria e, de repente, comecei a juntar as pecinhas e a perceber que era aquela a voz rouca que afinal me tinha espantado tanto, tinha eu ido ver A Menina do Mar, uns quantos anos atrás, ao Politeama, era “o tal” que me tinha autografado um programa, num dos dias em que se tornou mais claro que era ali, naquele mundo nervoso às cores, que eu queria ficar.

Pois vi-te e, na altura, surgiu outro mundo onde sabia que havia de sentir ser casa. Vi-te e fiz por apagar, porque era o que se fazia, que havia de sempre fazer crescer borboletas na barriga ver um homem transformar-se, ver um homem desafiar-se, ver um homem expandir-se, mais que o batom vermelho e os saltos e as plumas que usaste tão bem, numa realidade onde o ser manda no corpo mais do que o corpo possa definir o ser.

Ver-te, Zazá, ainda que brevemente (vi depois, há pouco tempo o Diogo Vilela, grande!, em vídeo, mas desculpa, para mim serás sempre o José Raposo…) foi perceber, clarificou-se mais tarde, que a frase “Somos o que somos” é uma das mais acertadas com que me deparei. Ver-te, Zazá, foi perceber que “casa” não é onde nascemos, é como nos renascemos, quantas vezes nos apetecer.

Ver-te, Zazá, foi perceber que havia um mundo-nicho de que queria fazer parte, e queria muito (o da noite, o dos espelhos, e sobretudo, esse levou uns quantos anos a entender, o da fluidez de género e de sexualidade – sim!, o da bandeira arco-íris) – tanto que cheguei a ter pena de não ter nascido homem para me poder renascer como tu (levou tempo mas cheguei lá, que nem sempre tem que ser assim tão linear).

Sabes? Acho que te orgulhavas de mim, se pudesses saber que, finalmente, até posso andar sobre rodas, mas muitas vezes de salto alto. E não dispenso.

E sabes porquê? Porque ver-te foi perceber que a verdade e a mentira são o que fazemos delas. Já danço em pé, de saltos, mal ou bem, paciência. “Ponho esta peruca e sou a grande diva no seu camarim”.

Sabes, Zazá, foste tu a primeira a dar-me o fascínio de ser extra-corpo. Encontrei mais tarde o meu “transformismo” na escrita. E tive que vir dizer-te para que não te cales. Pedir-te para voltares. Volta ao teu blogue (sim, ainda sou desse tempo, sempre calada), volta ao Facebook, volta como quiseres, mas volta. Não há falta de causas a que dares voz. O mundo precisa, mais do que imaginava. Tem havido inúmeras provas disso, não me vou espraiar.

E queria dizer-te obrigada, acima de tudo. Porque é muito pela tua existência e de ícones que inspiraram a tua criação que começo a ser tanto desempoeirada como “deslimitada”.

Espero por ti. Até lá, faço-te viver num imaginário de super-heroína, que, acredita, és.

Com um amor de há muito tempo, e agora sem se fazer apagar,

Inês.

Inês Marto tem 22 anos, vive em Lisboa, é escritora, gosta e até depende de boa música, não gosta mesmo nada se deitar cedo.

Ilustração de André Murraças.

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