barloff
Lydia Barloff – Actor, transformista e gordo

A Lydia. A Barloff. A gorda senhora do Finalmente que se percebia logo que não era uma senhora. Era uma boneca enorme, burlesca e grotesca, exímia matrafona que fazia rir. E muito. Excêntrica, de crítica assertiva e mordaz. Olhos esbugalhados. Boca enorme e língua gigantesca, órgão de provocação que manobrava até à exaustão.

Conheci essa boneca gigante no mini palco do Finalmente Club, no princípio dos anos 80 do século XX, no inesquecível espectáculo A Dança das Bruxas. Um inesperado e incrível espectáculo de cabaret, de enorme qualidade e rigor profissional, num mini espaço. Como era possível? Uma pista elevatória submergia do chão e era lançada uma mini passerelle até ao palco; o público sentava-se em pequenos bancos redondos, em torno da pista e do palco, e olhava, de baixo para cima, as pernas, as nádegas, os seios, os lábios, as narinas e as longas pestanas da Lydia. Tudo em grande! E o suspense aumentava quando os colares, de grandes bolas coloridas, rodopiavam em volta do seu pescoço gordo, em círculos de velocidade crescente, que pareciam poder rebentar a qualquer momento. Um exagero, premiado com gargalhadas. A Lydia brilhava, ofuscava, e levava o público do Finalmente, à época muito heterogéneo, ao rubro.

No entanto, o mais importante, para mim, é a memória que sempre retenho de que a Lydia era o Zé. O José Manuel Rosado, o actor. O a-c-t-o-r. Um actor emprestando o seu corpo e voz de homem, para a construção de um boneco feminino. Construído num palco e para um palco. Um boneco, neste caso uma boneca, que, após o espetáculo, se desmanchava e se arrumava, até ao dia seguinte.

Aprendi, ao ver o Zé a trabalhar, e comparando o seu trabalho com o de outros artistas de transformismo e de travesti, qual a fronteira exacta que separa o actor do travesti e do transformista. O transformista é um actor – já que não quer ser uma mulher. Trata-se, pois, de um artista que constrói, através de uma técnica composta por várias técnicas, um esboço ou perfil feminino, transformando-se, no palco, nessa persona feminina e regressando, após o espectáculo, à sua condição de homem-actor.

Claro que a Lydia é ainda uma outra coisa. É uma construção burlesca, nascida do corpo e da energia de um actor muito grande, um boneco, à imagem e semelhança de outros bonecos, em contexto de espectáculos de revista, que o Zé interpretou.

Nomeadamente com direcção de Filipe La Féria, e em programas de televisão com o João Baião. O actor ao serviço, pois, e neste caso, da caricatura. Como se ele próprio, só assim, em gozo e ironia, aceitasse bem o seu próprio corpo de homem gordo.

Não conheci outras facetas dramáticas ou teatrais do José Manuel Rosado, no sentido de acompanhar eventuais construções suas de “personagens” masculinas. Não sei se teve convites e oportunidades para criar, enquanto actor, personagens dramáticas ou de comédia, e não só bonecos. Se teve, não acompanhei e desconheço esses trabalhos.

Mas a verdade é que com ele aprendi, e sem nunca termos conversado, a distinguir entre a construção de um boneco e a construção de uma personagem – e, por sua vez, como isso também pode ser trabalhado, diversamente, no contexto do transformismo. O seu modo de construir a Lydia ajudou-me na reflexão e na construção de espectáculos que produzi, encenei ou interpretei, com recurso às técnicas do transformismo, tais como Cabaret das Virgens ou a trilogia de As Barbis. E onde a construção de personagens era menos evidente no primeiro caso: o meu boneco “Magdalena” contrasta, absolutamente, com a personagem “Tuxa” que construí no segundo caso. Obrigado, Zé!

Actualmente, o teatro segue outros caminhos, a questão da “personagem” parece, em muitos casos, ter sido ultrapassada. O espaço da criatividade performativa contemporânea de hoje talvez combinasse bem com as energias, as angústias e mágoas do Zé. Talvez, num palco aberto, manipulando colares, meias, plumas, sobre uma mesa, nos pudesse, enquanto actor, em jeito de teatro documental, falar da sua vida e dos seus sonhos de artista. E de tudo o que viveu e não viveu. E dos gordos! E das humilhações! E das gargalhadas fortes! E dos grandes momentos que viveu! Graças, em grande parte, à sua Lydia! Grande, louca, sexy e gorda.
Kitsch?

Silêncio. Amargura nos olhos esbugalhados, óculos gigantes na ponta do nariz. Boca de lábios grossos e vermelhos, mais gordos com o batom, em forma de coração, atira um beijo à plateia.

Entra uma musiquinha.

O boneco não tem vida. A Lydia morreu. O actor, que se suicidou, matou a Lydia. Mas a imagem da Lydia permaneceu e permanece separada da imagem do actor. Parabéns ao actor.

Não há pano para cair. Deixemos tudo em aberto. E rumemos ao Finalmente, onde cada noite é um dia e onde já poucos se lembram da Lydia… os deuses, agora, já são outros. The show must go on… Não faz mal, é mesmo assim que o mundo roda. Gargalhadas. Mais gargalhadas. E ainda gargalhadas.

Miguel Abreu é actor e produtor. Quando não está envolvido num projecto da Cassefaz, está a descansar no Meco.

Ilustração de André Murraças.

 

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