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“Nos mais pequenos frascos estão os melhores perfumes”, dizem. E há estórias que nos são oferecidas assim, em embrulhos pequeninos, vindos de um lugar desconhecido e que, ao serem abertos, têm um impacto gigante em nós. “O bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque”.

Num só parágrafo, dois clichés para falar de uma figura que foge a todos os clichés. A melhor forma de exaltar o inominável diferencial que este homem representou no Portugal dos anos 40. Estou a falar de Valentim de Barros, conhecem?

Valentim vive no desconhecido, um lugar que assenta que nem uma luva a esta personagem intrigante, que não merece viver nesse lugar esquecido, ou, não merecemos nós desconhecê-lo! Mas, acima de todos os trocadilhos, o Valentim não merecia ter vivido 40 anos exilado num manicómio, só porque tinha um “problema” diagnosticado por médicos da especialidade. Era diferente. “Um embaraço inultrapassável”. Era um excêntrico bailarino. Um artista. E sim, ele era tudo isso e também… homossexual.

Foi quando fiz um documentário sobre a loucura que bati de frente com ele. O Hospital Miguel Bombarda tinha acabado de fechar e projectava-se para o seu lugar um condomínio de luxo! Depois, soube que dizer loucura já não é politicamente correcto. Hoje não se fala em doença mental, mas sim saúde mental. No tempo do Valentim faziam-se lobotomias às pessoas que, como ele, só queriam seguir a sua natureza.

Quando vi retratos seus com olhar doce e suplicante a bordar paninhos a ponto de cruz, num cubículo decorado como o camarim do mais vaudeville dos cabarets, quis fazer um documentário só sobre ele: “Na loucura grita-se alto mas chora-se baixinho”. E nas prisões, reformatórios e manicómios de outros tempos, todos os Valentins acabaram sem encontrar a prometida salvação, já que essa é outra estória. Uma estória que parece lenda e fala de liberdade, tem perfumes raros e encontra-se apenas em frascos pequeninos…ainda hoje.

Luís Hipólito vive em Lisboa. No Inverno gosta do sol de Inverno…. no Verão de uma brisa fresca! E, de repente, lembra-se do Variações: “…estou bem aonde não estou…”.

Ilustração de André Murraças.

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