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Ana de Gonta Colaço (1903-1954) é uma das primeiras mulheres escultoras, que lutou para se afirmar num mundo artístico masculino.

Numa Lisboa do princípio de século XX, provinciana em comparação com Paris, Madrid ou outras capitais europeias, que eram de visita obrigatória para a elite cultural de um Portugal dividido entre a monarquia e o novo regime republicano, Ana de Gonta Colaço, reivindicou para si um espaço singular, consciente do valor da sua escultura.

Apresentava-se com o cabelo curto, à la garçonne, vestida com fatos de corte masculino, a fumar, pelos cafés do Chiado, espaço que apenas algumas mulheres ousavam frequentar. Era espirituosa e com um sentido peculiar de ironia, que fazia rir os seus amigos. Ana de Gonta Colaço, face aos olhares e críticas da sociedade, mantinha um certo ar blasé, profundamente consciente da sua condição de artista.

De admirar a coragem que lhe foi necessária para poder ter um comportamento de transgressão, dado que a liberdade com que se apresentava lhe poderia ter custado a vida ou o repúdio social.

Ana de Gonta Colaço teve apenas relacionamentos amorosos lésbicos, nunca aceitando casar-se para manter as aparências. As mulheres com as quais se envolveu eram figuras relevantes da época, de diversos quadrantes da sociedade. Com elas viveu, por diversos períodos, em Paris, Tânger, Lisboa e Parada de Gonta. A cada um destes momentos está associada uma produção artística específica, marcando profundamente a forma como via e se relacionava com o mundo, construindo para a sua vida e obra uma razão que justificou o estarem intimamente ligadas.

Na sua breve vida de 51 anos, contou com grande apoio familiar, vital para a proteger não só social como financeiramente, permitindo-lhe um espaço de liberdade criadora para a sua produção artística, num total de 37 esculturas, referenciadas até à data, na sua maioria retratos.

Ana de Gonta Colaço teve o seu primeiro momento de fama aos 26 anos, com o retrato escultórico Pele Vermelha, uma obra executada durante a sua frequência na Academie Julian em Paris e que foi seleccionada para o Salon d’Automne de 1929. Um segundo momento, em 1940, dá-se quando recebe o convite para participar na Exposição do Mundo Português, com a escultura D. Jaime, que a enquadra no panorama da arte nacional.

Ana de Gonta Colaço pertence ao meu universo de lésbicas portuguesas de referência. Estudei-a e, em 2007, produzi um trabalho académico sobre ela, para manter viva a sua voz. Sinto que lhe devo a firmeza com que hoje posso reclamar o meu lugar, enquanto lésbica e artista. 

Ana Pérez-Quiroga é artista plástica. Vive e trabalha entre Lisboa e Xangai.

 Ilustração de André Murraças.

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