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Ao Filipe, que passa tantas noites em vigília pelo seu teatro.

Tenho, na minha memória, marcado o momento em que decidi que era isto que ia fazer. Não é um momento apoteótico, nem um momento que, com certeza, todos lembram. Sei que foi no Passa Por Mim no Rossio, quando em pleno Teatro Nacional D. Maria II, alguns elementos do elenco faziam passar, de mão em mão na plateia, enormes alhos e tomates num quadro evocativo de Rafael Bordalo Pinheiro. Foi nesse instante, quando por momentos tirei os olhos do palco e os virei para a plateia, que tive a certeza de que queria mesmo fazer isto. Já antes a ideia andava de um lado para o outro na minha cabeça, ao ver a Eunice no Mãe Coragem, a Céu Guerra no Baile no Ritz Club, a Marina e o Cunha no Maria Matos ou o António Cruz com uma energia inesgotável na Casa da Comédia. Mas, quando vi o Passa por Mim no Rossio, tive a certeza absoluta de que queria fazer aquilo e haveria de começar por trabalhar com o Filipe La Féria.

E comecei.

Foi por acaso. Um dia, em casa dos meus pais, o telefone toca. Era a Sónia Fernandes que precisava de uma cassete com o Anjo Azul para o Filipe mostrar a Marlene Dietrich a cantar para a Grande Noite. E, como o stock de VHS lá em casa era muito vasto, era sempre paragem obrigatória. Os telefonemas com pedidos semelhantes foram acontecendo, os espectáculos também. Entretanto estreou o Maldita Cocaína que me deixou deslumbrado. Num desses telefonemas atendo o próprio Filipe La Féria, que precisava de umas imagens da Marylin para um espectáculo para a passagem de ano. Um espectáculo chamado Faça-se ouvir no novo milénio. E, numa conversa em que ele falou e eu gaguejei, acabei por ser contratado para, em 48 horas, produzir (sem saber muito bem como) dez clips de vídeo, cada um dedicado a uma década.

Fui ao Politeama ver um ensaio. Passadas vinte e quatro horas, depois de uma noite e um dia sem dormir, lá estavam os dez clips feitos com base em cerca de 200 VHS. Foi assim que comecei a trabalhar com o Filipe La Féria, foi assim que percebi como era trabalhar com o Filipe La Féria, foi assim que quis continuar a trabalhar com o Filipe La Féria e foi assim que ele me chamou, alguns dias depois, para fazer aquele que foi o seu maior êxito, o musical Amália.

Ao longo dos anos que se seguiram, tive o enorme prazer de trabalhar com o Filipe La Féria nos espectáculos Rosa Tatuada, Pierrot e Arlequim, A Casa do Lago, My Fair Lady, A Rainha do Ferro Velho, A Minha Tia e Eu, A Canção de Lisboa, Alice no País das Maravilhas, Música no Coração, Jesus Cristo Superstar, West Side Story, O Feiticeiro de Oz, O Principezinho, Violino no Telhado, A Gaiola das Loucas, Piaf, Fado – História de Um Povo e Portugal à Gargalhada, em funções tão diferentes que vão da gravação de spots de vídeo, ao design vídeo de cenários, à produção ou à assistência de encenação.

Mas o lado mais importante da minha ligação ao Filipe La Féria é a amizade. Poder considerar-me amigo do Filipe é um privilégio. Ter trabalhado com ele tantos anos, ter por ele a mais elevada admiração e tê-lo como meu amigo é, creio eu, um feito. Trabalhar com o Filipe La Féria não é fácil, ser seu amigo é facílimo. As conversas que tivemos no Salão Nobre do Politeama sobre os mais diversos assuntos ficaram para sempre comigo. Conversas sobre teatro, sobre gente de teatro, sobre cinema, música, pintura. Não há nada de que o Filipe não fale, não conheça e não tenha já abordado neste ou naquele espectáculo.

Entretanto, quando o André me falou para escrever para este projecto, depois da surpresa inicial, não tive dúvidas que seria sobre o Filipe que iria escrever, não só pela minha admiração por ele, mas pelo enquadramento que teria neste arquivo, pela proximidade que na sua carreira veio a ter com a comunidade LGBT. Veja-se o maravilhoso A Gaiola das Loucas (que fez com que recebesse um Prémio Arco-Íris, atribuído pela ILGA), vejam-se as suas várias abordagens ao tema nos mais diversos espectáculos e programas de televisão, como não lembrar Alexandra a cantar Alexandra, Alexandre, os grandes números de José Manuel Rosado na Grande Noite (que, com Joaquim Monchique, fazia as comadres alentejanas e as senhoras das casas de banho) ou no Cabaret, onde fez renascer a sua Lydia Barloff (e era uma maravilhosa cozinheira) ou o quadro a Botto também na Grande Noite, isto para não recuar até A Paixão, segundo Pier Paolo Pasolini, ainda na Casa da Comédia, que eu não vi mas que me chegam ecos de um espectáculo memorável.

Enfim, Filipe La Féria é um homem de teatro, que respira teatro todos os dias, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. O seu corpo é o teatro, o seu respirar é teatro. Como diz no fim de Passa Por Mim no Rossio: “Neste palco que não é de verdade/ Nesta noite, neste Tejo, neste cais / Neste sonho que é muito, muito mais”.

Frederico Corado vive no Cartaxo mas nasceu em Lisboa, na Rua da Palma. Tem 40 anos e lembra-se de comer bolachas de baunilha em casa dos avós, a ver o Danger Mouse na televisão. É um coleccionador compulsivo e, se pudesse, não fazia mais nada se não coleccionar, guardar, arquivar e catalogar o mundo.

Ilustração de André Murraças.

 

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