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No final da aula de ginástica, encontrámo-nos, o Banana e eu, debaixo do mesmo chuveiro, num canto cego do balneário. Ao aperceber-me de que me fitava, uma vez mais alapardado, ao mesmo tempo que os dedos se demoravam num cioso ensaboar do escroto e do sexo fanado e nada pueril para quem acabava de saltar dos 13 anos, os meus olhos, ao invés de todas as ocasiões em que a mesma cena se repetira, já não resvalaram pelos ladrilhos, onde uma calha encanava água, espuma e, pela primeira vez, não a minha vergonha mas a habitual assuada dos nossos colegas, na direcção do sumidouro. Antes enfrentaram-no, reflectindo às escâncaras o que o dele insinuava.

Na verdade continuaria sem saber que um rapaz poderia lançar a outro um olhar capaz de delir toda uma multidão ruidosa em redor, um olhar capaz de ir preparando a pele ao toque, se a professora de francês não tivesse nomeado Joaquim Manuel Magalhães, durante uma conversa sobre hábitos de leitura em que ela, perante o nosso silêncio emburrado, disse:

Com a vossa idade, também não lia grande coisa. Só na faculdade é que, por exemplo, consegui gostar de poesia; e tudo por causa de um professor fantástico, o Joaquim Manuel Magalhães, que é igualmente poeta…

E continuou a falar entusiasticamente acerca daquele escritor, obrigando-se a fazer as expensas da conversa.

Na escola, a maioria dos estudantes provinha de famílias de agricultores e de operários, ou de antigos agricultores entretanto convertidos ao operariado: enfim, gente de baixa escolaridade e em cujas casas muito dificilmente entrariam livros; na casa dos meus pais e dos meus avós, apesar do meu pai ter sido acólito durante a adolescência, não me lembro de ter visto sequer um missalzito.

Se em nada me distinguia dos meus colegas de escola, tinha, porém, a sensação de ser diferente. Era algo impreciso, que só o adulto em que me tornei, introspectivo e dado à observação, conseguiu perceber que não era outra coisa senão o desejo de ser diferente. Foi precisamente durante o monólogo da professora de francês que tomei a resolução de me tornar leitor e, em particular, leitor de poesia.

Tal projecto, todavia, revelou-se nada fácil de concretizar: a biblioteca da escola era incipiente e os livros, dicionários, uma enciclopédia e outros livros de apoio escolar, estavam bem guardados atrás de vitrinas fechadas à chave; na vila não havia uma única livraria, nem o que se lhe assemelhasse. A biblioteca municipal ficava na sede do concelho, à distância de um autocarro ronceiro a dar as sete da manhã. Teria assim de adiar tal empresa para próxima vez que fosse a Setúbal, por ocasião da consulta anual de oftalmologia que, felizmente, estava marcada para daí a menos de um mês. No final da consulta, pedi à minha mãe para me comprar um livro. Depois de olhar para o relógio para confirmar se teríamos tempo antes da partida do comboio que nos traria a casa, entrámos na livraria que ocupava todo o rés-do-chão do prédio contíguo ao do consultório.

Tem alguma coisa de Joaquim Magalhães?!

Perguntei ao livreiro, que ficou a olhar para mim, desde o fundo das lentes – mais grossas do que as minhas – que lhe ampliavam muito o olhar inquiridor. 

Tens a certeza de que é esse o nome?

Sim. Foi uma professora quem me falou nele.

Uma professora…

Disse, enigmaticamente, para logo depois desaparecer pelo corredor feito de estantes apinhadas de livros.

Mas quem é esse Magalhães?!

Oh, mãe. É um poeta!

Respondi, com a incredulidade de quem não percebia como alguém poderia não saber quem era Joaquim Manuel Magalhães, como se eu o conhecesse desde sempre e não tivesse ouvido o seu nome pela primeira vez há algumas semanas.

Um poeta, imagine-se!…

O livreiro regressou com um livro fino nas mãos. 

De momento só tenho este…

Disse-me, mostrando a capa muda sobre o que as suas páginas guardariam.

Era o Alguns Antecedentes Mitológicos. E na capa lá estava o nome pretendido e o de uma Ilda David que, notei, tinha o mesmo nome de uma colega da primária, com quem terei andado aos beijinhos na primária, para antegozo dos nossos pais.

Levo-o. Pode ser mãe?

Tem aqui um rapazinho muito precoce…

Disse o livreiro à minha mãe, cujo rosto se mantinha ilegível, enquanto lhe dava o troco e me passava para as mãos o pequeno saco com o meu primeiro livro a sério.

Enquanto esperávamos na estação pelo comboio, que não tardaria, li o primeiro poema, logo de seguida o segundo e não fui capaz de esconder a minha decepção: era incapaz de perceber o entusiasmo com que a professora nos falara daquele poeta. O comboio chegou e, já em movimento, li o terceiro poema. Não fiz as pausas necessárias, avancei pelos versos como caminheiro sedento à vista de uma fonte na berma da estrada. Nesse terceiro poema, para dizer a verdade, continuei sem perceber o enlevo professoral de há semanas; percebi-me. Corei e mais corei no seguinte, mal os meus olhos caíram no verso:

“O fuzil recusado do senhor trucida-o num silvo de esperma negro de fadicida.”

Acabei por ler o livro antes de chegarmos à estação que antecedia o nosso destino, sem prestar a mínima atenção às gravuras de Ilda David. A cada novo poema, era como um náufrago que vem à tona e aspira todo o ar até que as costelas lhe fazem doer a arca dilatada do peito.

Escurecera, entretanto. Pousei o livro no colo e olhei para a janela, vendo reflectido o meu rosto ainda afogueado. 

Posso ver?

Perguntou-me a mãe, esticando a mão na direcção do livro.

 Não… ainda não acabei de ler.

Menti, tornando a abrir o livro, relendo o verso do silvo de esperma negro de fadicida.

Alguns anos mais tarde, deixei precisamente o Alguns Antecedentes Mitológicos ao alcance dos olhos da minha mãe, para assim lhe forçar a pergunta a uma resposta que eu desejava responder.

E ainda hoje não parei de reler Joaquim Manuel Magalhães, tendo andado à caça de quase toda a sua obra (e se alguém tiver o Cartucho – o único título que me falta – e mo quiser oferecer, ficaria grato até à data do meu passamento). Através do poeta Joaquim Manuel Magalhães descobri João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Hélder Moura Pereira e a plêiade reunida na antologia Sião. Com o tradutor Joaquim Manuel Magalhães cheguei a Kaváfis e a muita da actual poesia espanhola. Através do crítico Joaquim Manuel Magalhães fiz a minha educação poética e, mais importante, sentimental: todas as minhas dores de crescimento e de desamor passaram, não por letras magoadas de canções pop, mas pelos versos de Joaquim Manuel Magalhães.

Quanto ao Banana, que ficou, lá no primeiro parágrafo, ainda debaixo do chuveiro?… “Para quê contar histórias que ficam sem destino, armas galantes de pobreza, de paixão.” Outra vez, e sempre, Joaquim Manuel Magalhães.

Manuel Serrano vive em Palmela, na verdade na freguesia de Pinhal Novo. Ex-jornalista que a crise tornou agricultor. No verão gosta da sombra das laranjeiras e das caminhadas pela Serra do Louro em manhãs de geada invernal. 

Ilustração de André Murraças.

2 thoughts on “

  1. Queria agradecer a Manuel Serrano a sua história. dentro da qual me coloca. Também eu tive uma adolescência parecida com a sua, mas em Trás-os-Montes.
    Também dizer-lhe que nem eu tenho o CARTUCHO que refere. É uma coisa sem o menor interesse. Não se preocupe.
    Também eu vivo no campo.
    Obrigado.
    Joaquim
    +O André Murraças conseguiu salvar uma fotografia que eu odeio. Obrigado também.

    Liked by 1 person

    1. Caro, Joaquim Manuel Magalhães,
      Muito agradeço o seu comentário. Fico contente com este encontro ainda que virtual. Receba um abraço de outro leitor e admirador. André Murraças.

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