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Olhar para trás e lembrar o início da adolescência é parar, obrigatoriamente, naqueles dias de Verão em família, na Nazaré. É pensar nas idas à praia, nas sessões de cinema com os filmes do Chuck Noris e os repetidos Carry On, nas vezes em que participei nas Construções na Areia ou nas noites a jogar crapô – cujas regras das cartas esqueci.

É também relembrar aquela madrugada onde passou, na pequena televisão vermelha que havia em casa, um filme estranhíssimo, para mim, naquela altura, claro está. Começava, não esquecei jamais, com um plano onde se via um braço amputado a flutuar no rio Hudson, em Nova Iorque. Mais tarde, esse filme, de seu nome Cruising, viria a ser um dos filmes da minha. Mas este texto é sobre o oposto disso. O Verão desses anos era tudo o que referi e mais uma coisa: os Jogos Sem Fronteiras. Ou melhor, os serões em que fazia fita para faltar ao passeio nocturno e ficar antes a ver aquilo na TV.

Alguns acasos me ligam ao evento. Por exemplo, a Amadora, cidade onde vivi 28 anos, representou Portugal em diversas edições, sendo que o meu pai estava ligado à organização da iniciativa. Mas não era sobre isso que queria escrever. Há no evento outras singularidades que me marcaram, se acreditarmos que um evento televisivo pode marcar um jovem na sua descoberta como pessoa.

Esquecemos, ou não, a óbvia descoberta em início de adolescência de um manancial de corpos viris em acções desportivas, que iam do jovem rústico ao beirão, passando pelo futuro metrossexual. Um desfilar de atletas que exibiam toda a sua força física em pornográficos speedos que despertavam em mim sensações que, na altura, eu começava ainda a interpretar. Deve ter sido das primeiras vezes que objectifiquei algo, cedendo à sexualização do corpo em toda a sua performance televisiva.

Mas os Jogos Sem Fronteiras foram sobretudo, para mim, o encontro com um mundo fora daquele onde eu vivia e que, apesar de não estar mal, achava sempre que grande parte de mim não encaixava. Com o tempo, nos teatrinhos de Natal, nos livros estranhos, nos filmes antigos, nas canções que ninguém gostava, encontrei o que faltava. Mas estou novamente a alargar-me.

Voltando atrás, dizia eu, foi nessas noites de Verão, quando eu ficava no sofá a ver o Eládio Clímaco, que descobri que afinal o meu mundo estava mesmo à minha frente. Dentro daquele aparelho, numa qualquer cidade longínqua da Europa. E era maravilhosamente queer e camp, percebo isso agora. Era um local onde as piscinas não serviam para nadar. Eram antes uma cópia dos filmes do Busby Berkeley onde as bailarinas faziam elaborados números em enormes piscinas a preto e preto, e que eu também via nesses verões. Nesse mesmo mundo, havia bonecas insufladas sem propósitos sexuais. Parecia que ganhavam vida. E existiam cenários coloridos com cores berrantes que não eram de filme. Era um parque que era temático e não era infantil, repleto de objectos do dia-a-dia ampliados, desafios que envolviam barcos de borracha, castelos de esferovite, piratas de cartão e cidades feita de espuma. Um sonho para um jovem que encontrou, depois, a ilusão no teatro. E a ilusão é o maior dos prazeres, como diria Wilde.

E tudo isso existia em cidades fora da Amadora e Nazaré, estimadas à sua maneira, claro. Mas ficou logo ali a vontade em conhecer de perto aqueles locais, sonhando ir a San Marino só porque o nome era estranho demais para um país.

Hoje as noites televisivas de Verão são absolutamente dispensáveis, desinteressantes e inconsequentes. Os concursos são mastigados e, por menos vestido que possa algum concorrente estar, o meu interesse é nulo.

Tenho saudades das noites de antes. E desses Verões.

Texto e ilustração de André Murraças. Tem 42 anos, vive em Lisboa. Gosta de ovos Benedict. Quando escreveu este texto, estava a ler Less, de Andrew Sean Greer. Não gosta de ar condicionado.

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