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O filme português que mais me marcou, enquanto imberbe espectador e jovem homossexual a descobrir-se (no ecrã), não foi nenhum dos títulos de Reinaldo Ferreira. Foi, como provavelmente para muitas pessoas da minha geração, O Fantasma, de João Pedro Rodrigues. Recordo perfeitamente um casal que, sentado na fila atrás da minha, galhofava algo como “é um filme bom para aprender umas coisas novas”. De certa maneira, o cinema que Reinaldo Ferreira realizou nos anos 1920, em Portugal, é isso mesmo: bom para aprendermos umas coisas sobre o que era a nova sociedade dos chamados “anos loucos”.

Reinaldo Ferreira (1897-1935) foi jornalista – mais conhecido pelo seu pseudónimo, Repórter X –, romancista, dramaturgo e, também, realizador de cinema. A sua relação com o cinema dá-se primeiro como crítico (o primeiro em Portugal, em 1914 no jornal A Capital), depois como “argumentista” e, mais tarde, como realizador. São da sua autoria duas longas-metragens – O Groom do Ritz (1923) e O Táxi N.º 9297 (1927) – e três filmes de metragem curta – Rita ou Rito?… (1927), Vigário Sport Club (1927) e Hipnotismo ao Domicílio (1927). Destes só sobreviveram intocados Táxi e Rita, o Groom perdeu-se totalmente, e dos outros dois só sobram fragmentos desconexos.

O seu cinema manifesta, de certo modo, o seu jornalismo sensacionalista, à sensation, de escândalo (o seu tema mais recorrente, os assassinatos famosos). Aliás, tanto Táxi como Rita baseiam-se em “peças de investigação jornalística” suas, tornando-se assim a sua obra cinematográfica num marco histórico fundamental e num importante manancial sobre os costumes da sociedade portuguesa antes da implantação do Estado Novo. Que sociedade descobrimos nos seus filmes? Entre muitas outras coisas, uma onde a homossexualidade era tolerada e até aceite (moderadamente). O Táxi N.º 9297 constitui a primeira figuração no cinema nacional de um personagem abertamente homossexual, o espanhol Don Alfonso (interpretado por Manuel Silva), e Rita ou Rito?… (como o título antecipa) é o primeiro filme português que representa o travestismo, sendo aliás esse o centro narrativo desta comédia de enganos e identidades trocadas.

Além dos interesses específicos destes filmes mudos na história do cinema feito em Portugal (a apropriação de géneros cinematográficos estrangeiros, como o filme de detectives ou o burlesco, e o facto de quebrar formalmente com muito do que era a produção tradicional do cinema mudo desses tempos), Táxi e Rita são marcos fundamentais na história da representação de personagens LGBT no cinema português. São filmes bastante ricos em leituras que revelam as mudanças dos costumes da sociedade portuguesa na sua década e fazem-no de modo a que o espectador não se sinta superior às personagens, pelo contrário, o que pode ter levado (e ainda leva) a que vários se questionassem sobre a fragilidade das convenções sociais normativas de género, raça e classe social. Por isso mesmo, estes filmes com mais de 90 anos de existência são, ainda hoje, objectos pertinentes para compreendermos a nossa história, enquanto portugueses e enquanto pessoas queer. 

Ricardo Vieira Lisboa é crítico de cinema no site À Pala de Walsh, programador no festival IndieLisboa, investigador e realizador. Gosta, acima de qualquer outra coisa, de porcarias.

Ilustração de André Murraças.

2 thoughts on “

  1. Bom texto. Pena não referir que o Repórter X foi pai do poeta Reinaldo Ferreira (Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira), nascido em Barcelona em 1922, e falecido em Lourenço Marques em 1959. O Reinaldo, filho, foi para LM em 1938, com 16 anos. Eu era miúdo, mas ainda o vi várias vezes, porque minha mãe o conhecia. Ironia do destino, o Reinaldo teve como tutor, no liceu, um professor que foi obrigado a ir para Moçambique por razões pouco ortodoxas…

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    1. Verifico agora que o comentário ficou incompleto. Portanto… «foi obrigado a ir para Moçambique por razões pouco ortodoxas… por causa de uma investigação (na Madeira) do Repórter X.» A ironia reside aí: professor ‘exilado’ foi ser tutor do filho do jornalista que mudou a sua vida.

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