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Já não me lembro quem é que me disse que podia encontrar outras lésbicas no bar As Primas. Mas lembro-me bem da primeira vez em que lá fui. Tinha chegado recentemente de Londres e, quando entrei no bar, pensei que me tinha enganado. Havia uma mesa de matraquilhos ao meio, mesas e cadeiras que se podia facilmente encontrar em qualquer bar. As mulheres que lá estavam não pareciam lésbicas e, quando olhava à minha volta, não havia cortes de cabelo curtos, brincos e colares com símbolos lésbicos, nem roupa que facilmente distinguia mulheres heterossexuais de lésbicas.

Depois de algum tempo, comecei a perceber os sinais. Se uma mulher mantinha o meu olhar, era porque estava interessada. Se havia várias mulheres numa mesa, era possível que fossem lésbicas. O Bairro Alto da altura, muito diferente do Bairro Alto “para turista ver” de agora, era um lugar de encontro, onde alguém recém-chegado podia conhecer outras pessoas LGBT enquanto bebia um copo para depois seguir para bares e clubes. Encontrei muitas destas pessoas nas noites quentes em que ficava à porta das Primas a ver o mundo a passar.

O bar tornou-se o meu lugar de início da noite. Gostava do sentido LGBT do nome As Primas (fez-me pensar em We are Family, de Sister Sledge). E as primas, em si, eram mulheres poderosas que também olhavam sempre por nós. Lembro-me de uma vez, em que a noite estava a ser estragada por um homem bêbado que não parava de fazer comentários homofóbicos. Chegou a altura em que uma das primas se aproximou da nossa mesa, perguntou-me se o homem estava a chatear-me, pegou nele e pô-lo fora imediatamente. As primas estavam sempre bem-dispostas, mas se não gostavam de alguém, mostravam-no de forma clara.

Há muito tempo que não vou às Primas, porque agora vivo numa outra cidade. Mas foi o lugar em que encontrei pessoas importantes na minha vida e onde comecei a ser integrada na comunidade LGBT de Lisboa. Será sempre para mim um lugar de referência na cidade.

Francesca Rayner é Professora Auxiliar na Universidade do Minho, onde lecciona unidades curriculares de graduação e pós-graduação em Teatro e Performance. A sua investigação incide sobre a política cultural da performance, com destaque para a performance de Shakespeare em Portugal e questões de género e de sexualidade.

 Ilustração de André Murraças.

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