gisberta

É triste que só celebremos a vida de uma pessoa pelo mal que lhe aconteceu. É triste mas não é inconsequente. Fazemo-lo para impedir que o mal regresse ou para eliminar o mal que ainda grassa. E a nossa história colectiva está repleta destes heróis e heroínas, anónimos em vida, cujo último suspiro se prolonga pelo nosso presente.

Gisberta era trans, trabalhadora do sexo, vivia com VIH e tuberculose, era imigrante sem papéis, sem abrigo, pobre. Vulnerabilidade total. Foi sujeita à pior das mortes: abusada, espancada, torturada durante dias a fio num prédio abandonado no centro do Porto. No final, o seu corpo sem vida foi atirado para o fundo de um poço escuro, para ser esquecido. Os autores da injúria? Um “bando de rapazes” do Porto, entre os 12 e os 16 anos, acolhidos por uma instituição católica da cidade, rotulados com o famoso “jovens em risco”. A história imediata foi a que era previsível: a igreja tentou “abafar” o assunto, usando a habitual estratégia de culpabilização da vítima – “vivia em pecado”, dizia um padre da instituição, enquanto outro que celebrava o seu funeral se referia a ela como o “Gisberto”. Do nosso lado, fazíamos um esforço titânico para evidenciar os elementos de exclusão da Gisberta como o motivo do crime, o que culminava, meses mais tarde, na realização da 1ª Marcha do Orgulho no Porto.

Mas a Gisberta mostrou-me algo além do evidente. “Bando de rapazes” do Porto, uma descrição que me teria sido feita à medida poucos anos antes. Quando eu próprio, sem saber quase nada de identidades e orientações, transgredia tudo o que podia porque… estava no bando! Por efémeros e patologicamente honestos momentos, a Gisberta conseguiu instalar em mim a odiosa dúvida: poderia ter sido eu a fazer aquilo?

É na mais sincera e gélida constatação que conseguimos perceber como se processa o mal e quais são as suas raízes. E só quando nos vulnerabilizamos a tal ponto é que descobrimos a importância de lutarmos perenemente contra as injustiças e a discriminação. Baixar os braços é convidar o mal a entrar pela porta novamente. E quem sabe, se pela porta da frente…

Bruno Maia tem 36 anos, nasceu na cidade do Porto, gosta muito de astrofísica e da lua Titã (de Saturno) e não gosta mesmo nada de sardinhas.

Ilustração de André Murraças.

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