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Quem, como eu, nasceu nos setenta, cresceu nos oitenta e se fez homem nos noventa, conhece certamente este Portugal de que aqui falo.

Nasci já em liberdade – e talvez seja esse um dos motivos deste generation gap – mas ainda experimentei um pais amordaçado, onde ainda vigorava o “don’t ask, don’t tell” no que à sexualidade de cada um (mas não só) dizia respeito.
Era o Portugal onde atacar alguém por ser homossexual – mais até do que por ser lésbica – estava na linha da frente das motivações de muito bullying – fosse na escola, no trabalho ou no café.

Nesses tempos, falar de ídolos no que à emancipação da (homos)sexualidade diz respeito, praticamente começava no Guilherme de Melo – a única presença regular no debate público destes temas – e acabava nas meninas do Finalmente que, encabeçadas pela Ruth Bryden, faziam as suas aparições nos programas de variedades televisivas. Sem praticamente mais ninguém pelo meio, a não ser o Variações, que não se deixou enredar em estereótipos, e uns concertos ocasionais do Ney Matogrosso que tinham sempre destaque noticioso, como se de uma catatua rara que tivesse nascido no zoológico de Lisboa se tratasse.

Era um Portugal dos hipócritas, que desculpavam sempre a sua falta de tomates com uma pretensa caça às bruxas – “vamos perder trabalho, vamos perder popularidade, vamos perder estatuto, vamos ser postos de parte”. Era vê-los dentro dos seus ridículos armários – que não eram mais do que autênticas vitrinas, onde todos viam o que se passava lá dentro; mas quem dentro delas estava se achava protegido por uma redoma de discrição. Eram os “Nelos” da vida, que se iam sucedendo na alternância da visibilidade pública, mas sempre mantendo o tom discreto. Na política, na cultura, na vida empresarial, todos sabiam dos seus vícios privados mas éramos forçados a conviver com a hipocrisia das suas públicas virtudes. De portas abertas ou janelas escancaradas, insistiam numa vida de duplicidade: ora tinham dois amores, ora se deixavam enfeitiçar, como que por telepatia. E quando a cabeça não teve juízo muitas vezes acabou por ser o corpo a pagar.

Foi neste Portugal que grande parte da minha geração viu moldada a sua personalidade. Foi neste Portugal em que ainda herdamos o medo de sermos como/quem somos e nos vimos forçados a alinhar com a carneirada, para não criar ondas. Não é desculpa para nada, é certo – muitos dirão que não se viram forçados a nada disso e sempre se assumiram integralmente. Mas do que aqui falo não é do conforto do lar de cada um mas da vida pública dum país, duma vida pública que era povoada por uma série de personagens que durante anos a fio – muitos deles ainda hoje insistem em fazê-lo, em manter pelo menos a ambiguidade de não ter de colocar pontos nos ii – deram e foram um terrível exemplo para uma geração que nasceu livre mas não conseguia realmente sê-lo. Fazem-no sem se aperceberem do ridículo a que se sujeitam: é tipo aquele moço de Elvas que, porventura porque os correios no Alentejo demoram mais tempo a fazer a distribuição e ele andava mais deslumbrado por Lisboa, só recebeu a carta já depois de ter contraído votos de matrimónio com uma moça lá da terra. No século XXI, atenção.

Quando me falam em ídolos, eu acho sinceramente que os ídolos desta minha geração somos todos nós, mais ou menos anónimos, que da esquerda à direita, de norte a sul, diariamente nos estamos a borrifar para o status quo que essa velha guarda, apesar de se dizer moderna e esclarecida, tudo fez para continuar a impor.

O Grande Armário Português sempre foi de vidro, só quem insiste em permanecer lá dentro é que não se dá conta da figura que está a fazer.

Filipe de Almeida Santos tem 41anos. É Chocolate Maker, actualmente em São Tomé e Príncipe. Adora Portugal e odeia Portugal. É assim com muitas outras coisas.

Ilustração de André Murraças.

 

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