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Desde miúdo que todos os anos me sento em frente à televisão para assistir ao Festival Eurovisão da Canção. E já lá vão mais de 40… Nestes anos todos, só não o fiz uma vez: em 1998. Fui a um casamento de uns amigos. Mas foram-me enviando mensagens a contar o que se passava, principalmente durante a votação. Ganhou a grande favorita: a Dana International (a primeira transexual a participar na Eurovisão).

Momento quiz: sabiam que a primeira drag queen a surgir num palco eurovisivo foi em 1986 na canção norueguesa?

A primeira memória eurovisiva que tenho é de 1979 (tinha cinco anos). Fiquei maravilhado com toda a exuberância dos alemães Dschinghis Khan e, do lado oposto, com toda a simplicidade da espanhola Betty Missiego com Su Canción.  No ano seguinte, como não adorar o pinguim do Luxemburgo e toda a electrónica dos belgas Telex? Em 1981, o horóscopo das irlandesas Sheeba e as saias voadoras dos Buck Fizz… E esta lista podia continuar…

Os culpados por esta minha paixão? A minha mãe (que em dias de festival passava a tarde a fazer crepes – a sobremesa que só era feita em ocasiões especiais), mas principalmente o meu primo mais velho. Nessa altura, ele já tinha uma rede de amigos estrangeiros com quem comunicava via carta. Todos os anos trocavam entre si os singles das canções participantes. Era um feito conseguir todos os singles. E por tudo isto vivíamos a Eurovisão o ano todo. Lembro-me de, em adolescente, ir para casa dele para ouvirmos os singles. Era o nosso clube secreto e o nosso escape, onde nos sentíamos seguros e onde sabíamos que não éramos criticados. Sim, em miúdo e adolescente fui bastante gozado por gostar da Eurovisão. Rapaz que era rapaz não podia. Existia demasiado brilho, demasiadas coreografias, demasiada alegria, demasiadas luzes, demasiadas roupas excêntricas, demasiados penteados e pessoas “diferentes”. Insinuações (umas menos óbvias que outras) que ficavam no ar… Homens que dançavam sem vergonha e usavam cor-de-rosa. Mulheres que se vestiam de forma masculina e desafiavam as convenções sociais das épocas… E todos juntos no mesmo palco, em harmonia.

Foi esse o porto seguro que, em adolescente, encontrei na Eurovisão e me fez sentir que não era o único no mundo. Nos anos 80 ainda não existia Internet, nem o acesso à informação que temos no presente. Era esta uma das portas que tínhamos para outras culturas, outros locais, outras línguas, outros sons, outras tradições.

Certo é que ainda hoje quando tenho um dia mais triste ou mais complicado sei onde me posso refugiar e fugir… Nem que seja por três minutos.

Paulo Castelo vive em Lisboa. É produtor de rádio. O seu livro preferido é Coma, de  Alex Garland e ouve, vezes sem conta, o CD Blood, de Rhye. 

Ilustração de André Murraças.

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