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Sabem aquela sensação, quando vão a museus, de que há obras que vos chamam? Depois, aproximam-se das placas e apercebem-se de que são sempre do mesmo artista? Bem, foi isso que me aconteceu com as obras da dupla João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira. Dei por mim a fazer um trabalho alongado sobre eles. É parte dessa pesquisa académica que aqui partilho convosco.

Antes de mais, as apresentações. Depois de uma longa prática individual, Vale e Ferreira acabariam por se tornar uma dupla em 2009. Vale nasce em 1976, Ferreira é três anos mais velho. A dupla assume a sua homossexualidade como uma ferramenta de trabalho e rejeita que essa decisão possa trazer limitações. Prova disso é a sua prática, que se estende da pintura à assemblage, da instalação ao cinema, passando pela performance. Nela, a reinterpretação de objetos do quotidiano apresenta-se como uma constante.

Falo-vos duas obras de 2000, assinadas apenas João Pedro Vale. Body Sculpture trata-se de um equipamento de ginásio coberto de pastilha elástica, evocando uma preparação do corpo para o jogo do engate e, em simultâneo, o modo como esses mesmos corpos são descartáveis, como uma chiclete. Já em We All Feel Better in the Dark é recuperado o título da canção dos Pet Shop Boys, num trampolim negro onde consta essa inscrição. Vale remete-nos para a noite, para o escuro do engate, como uma zona de conforto para onde podemos saltar.

UMA QUESTÃO DE IDENTIDADE (QUEER)
Objetos aparentemente desprovidos de características sexuais conduzem-nos para uma identidade queer. Contudo, e permitam-me o jogo de palavras, o foco do trabalho de Vale e Ferreira é mais amplo: é a própria identidade portuguesa. Por isso, o investigador Fernando Cascais não hesita em classificá-los como “os operadores de um outing dos armários da cultura portuguesa”.

“Comecei por querer falar da nossa identidade nacional, da nossa portugalidade, mas acabei por falar da minha própria sexualidade”, reconheceu Vale numa entrevista ao Expresso em 2016. Interessa-lhe reformular, com Ferreira, os símbolos que marcam a nossa identidade como país.

Exemplo disso são os filmes English as She is Spoke, de 2010 (com Ferreira) e a performance Festa Brava, de 2005 (assinada apenas por Vale). No primeiro, os artistas inspiram-se em histórias reais de jovens repatriados para os Açores, onde as famílias têm origens mas eles não. Surge então a pergunta: o que é a identidade, o que faz de nós portugueses quando as nossas referências estão noutro país? Assentes num antigo de conversação entre línguas do século XIX, Vale e Ferreira exploram as barreiras linguísticas que estes jovens agora enfrentam. Nada disto é feito sem um twist queer, revelando um duplo mecanismo de exclusão.

Já em Festa Brava, oito homens vestidos de forcados, mas de saltos altos, deambulam por Monsanto, em Lisboa. Vale quer assim desafiar a ideia de masculinidade associada à tauromaquia, abordando ainda as questões do travestismo e da prostituição. A escolha por Monsanto não é inocente, bem pelo contrário: esta é uma zona frequentemente associada à prática de cruising, isto é, encontros sexuais espontâneos entre homens.

É então um abalar do próprio sistema de crenças em que a identidade se funda. As tradições, os preconceitos, os textos literários, os provérbios, as lendas e os factos históricos surgem como base do ato de criação. João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira manipulam então os símbolos da nossa cultura, adicionando ou subtraindo sentidos.

Assim, colocar o seu trabalho apenas no campo da arte queer é ficar pela superfície. A homossexualidade apresenta-se como uma ferramenta para falar de uma série de outros assuntos. Capaz de activar novas leituras e promover, em simultâneo, a estranheza e a aproximação do espectador. Joga-se, e bem, com as expectativas.

QUANTAS LEITURAS TEM UM LIVRO
Por falar em leituras, o universo literário e a ideia de ficção são uma constante na obra de Vale e Ferreira. Da literatura infantil aos livros que (quase) todos partilhamos na nossa memória coletiva. Mas, agora na sua obra, despidos dos valores e dos modelos de comportamento habituais, como veremos.

Em No Entanto Eles Voam de 2007, Vale constrói uma “passarola”, evocando o aparelho voador de Memorial do Convento de José Saramago. Em Pedras no Caminho, de 2015, são apresentadas 24 pedras pintadas, não inocentemente, de cor-de-rosa. Lembram-nos dos apedrejamentos a comunidades minoritárias que continuam a existir por esse mundo fora. De onde parte Vale? Da conhecida frase de autor desconhecido: Pedras no caminho? Guardo-as a todas, um dia vou construir um castelo.

Também a história de I Have a Dream, de 2002, conta com um castelo. A obra é um balão de ar quente em tecido cor-de-rosa, construído a partir da forma do palácio d’A Bela Adormecida da Disney que, por sua vez, se inspira no palácio de Neuschwanstein do Rei Ludwig II da Baviera. Outras referências podem ainda ser convocadas: o famoso discurso de Martin Luther King na defesa das minorias e o livro autobiográfico Antes que Anoiteça do cubano e homossexual Reinaldo Arenas, com uma fuga ficcionada de Cuba num balão de ar quente. A obra de Vale foi instalada junto a um mapa onde se bordavam os países onde ainda existiam leis que punem a homossexualidade.

É também com a desconstrução de um clássico da literatura, Moby Dick de Herman Melville, que se dá a ruptura desta dupla com o sistema galerístico, em 2009. A escolha para exibir uma das componentes do projeto, o filme Hero, Captain and Stranger, recaiu sobre o Cine Paraíso, em Lisboa, conhecido como um cinema de filmes para adultos. Era isso que a dupla tinha para mostrar: um filme pornográfico gay, o primeiro em Portugal.

Deixando indefinida aquela que é a fronteira entre a pornografia e a arte, os artistas ativam diferentes leituras. Apesar da existência de uma linha narrativa bem mais consolidada do que na comum pornografia, Vale e Ferreira demoram-se mais no retrato do ato sexual. A baleia que protagoniza a história original é, aqui, transformada em falo.

O QUE DIZ UM FALO
Contudo, nenhum falo foi tão polémico na carreira de Vale e Ferreira como o que ilustrava a sua exposição P-Town, prevista para o Espaço Tranquilidade, em Lisboa, no ano de 2011. A mostra acabaria por ser cancelada devido a um Cristo Rei com forma fálica, escolhido para ilustrar os cartazes. Volto só um pouco atrás para contextualizar o projeto.

Depois de uma residência artística em Provincetown, localidade dos Estados Unidos da América conhecida como um paraíso gay mas também pela forte presença da comunidade emigrante portuguesa, Vale e Ferreira procuraram estabelecer uma ponte entre esse território e a Costa da Caparica. É notória: o caráter frágil das casas aí erguidas por pescadores, os corpos nus nas praias, a natureza como local de encontros sexuais fortuitos entre homens (na Praia 19, por exemplo), a ideia de litoral como local de evasão e construção de sonhos.

“Com o P-Town nem nos passou pela cabeça que poderíamos estar a ser transgressivos”, admitem Vale e Ferreira numa entrevista com Miguel Amado em 2012. Para os artistas, não se tratou de uma tensão entre arte e sociedade mas entre arte e poder, neste caso económico. Do outro lado do caso estava a Tranquilidade, que à altura integrava o Grupo Espírito Santo, que viria a colapsar em 2014. “Como muitas vezes acontece em galerias associadas a empresas, o marketing foi confundido com prática curatorial e a arte passou a puro entretenimento”, defendem na mesma conversa. A exposição acabou por ser mostrada na Galeria Boavista, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

É importante recordar que não há outro órgão humano que receba tanta atenção verbal como o pénis. Enquanto símbolo da masculinidade e de um certo status quo, este órgão é alvo de inúmeras pressões, tanto no que respeita ao tamanho como ao desempenho sexual. Por isso, a presença constante do pénis (e de outras formas fálicas) na obra de Vale e Ferreira configura um ato de liberdade e independência. Na medida em que o mostram, o tornam real, desconstroem os mitos que o envolvem. E, assim, abalam as estruturas de poder que definem a masculinidade e a heteronormatividade.

O trabalho de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira é uma referência incontornável para toda uma nova geração de artistas que se desafia a pensar a questão do desejo homossexual. A dupla reforçou o seu percurso com novas narrativas: o mais recente capítulo chegou com a inauguração da exposição A Mão na Coisa, A Coisa na Boca, A Boca na Coisa, A Coisa na Mão na galeria Cristina Guerra Contemporary Art, em Lisboa, inaugurada a 10 de Julho.

Wilson Ledo vive dividido: entre Lisboa e os Açores, entre o jornalismo e a curadoria de arte, entre os palcos da política e os palcos da cultura. Sente-se sempre a fazer pontes entre mundos que, à partida, pareciam tão distantes.

Ilustração de André Murraças.

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