swing

Lembro-me bem daquele friozinho na barriga, de cada vez que percorria as arcadas da galeria comercial do Parque Itália, vendo, ao fundo, a entrada da discoteca Swing a aproximar-se. Não era só a incerteza de conseguir entrar, mas saber que, depois de ultrapassar a/o porteira/o, ia entrar num lugar único, com um ambiente tolerante à diferença, onde poderia encontrar outros “como eu”.

Ainda guardo uma espécie de diário, em que tenho anotada a minha primeira ida ao Swing, em 1990, com 16 anos. Era uma excitação enorme, tal como era, na altura, ir ao Cais 447 ou ao Indústria. Mas, quanto à magia do Swing, viria a descobrir ser ainda mais especial.

De facto, para mim, e para muita gente da minha geração (adolescente no final dos anos 80, inícios de 90), o Swing foi o primeiro sítio onde pudemos ter contacto com outros gays e lésbicas, uma vez que ali se encontrava uma saudável mistura de públicos, muito rara naquela época. Havia, claro, bares exclusivamente gays na cidade mas, para um jovem dentro do armário, era impensável arriscar ir a um sítio desses, que imaginava quase assustador. E não podemos esquecer que tudo isto era vivido numa altura em que não havia sequer Internet e em que, no ambiente escolar, universitário ou profissional, só poucos corajosos não escondiam a sua orientação sexual.

Assim, aquando das primeiras saídas nocturnas com colegas e amigos, ouvir dizer que no Swing havia muitos gays, para “ter cuidado e não ir ao bar do fundo”, pois era onde se concentravam, despertou uma curiosidade enorme e abria a possibilidade de, finalmente, conhecer “alguém”. Depois, com algum receio, comecei a arranjar desculpas para passar “lá pelo fundo”, e também para ficar sozinho até mais tarde, quando todos queriam ir embora.

E assim foram acontecendo as primeiras trocas de olhares cúmplices, os primeiros sorrisos tímidos, um toque leve na barriga, ao passar, que nos arrepia, a descoberta dos “outros-como-eu”, que acabavam com a nossa imaginada solidão.

No meu caso, foi no Swing que conheci o primeiro homem com quem tive uma aventura, aos 17 anos, e, sobretudo, foi onde conheci o homem que seria a minha primeira grande paixão, o meu primeiro grande amor, e que seria meu companheiro durante 13 anos. Já ouvi muitos relatos de outras pessoas que também ali encontraram os primeiros cúmplices do que, na altura, era uma vida clandestina para a maioria.

Assim, este espaço, que durante décadas foi uma referência na noite do Porto, tem um lugar especial no “arquivo” dos gays e lésbicas do Porto – e mesmo das regiões circundantes. Não só pela abertura à diferença, mas pela “banda sonora” das nossas vidas (ainda me lembro de, em 1998, só ali se dançar efusivamente o Outside do George Michael ou as remixes do Victor Calderone para o Frozen e o Ray of Light da Madonna), ou ainda as épicas festas de Carnaval (quatro noites seguidas, de sexta a segunda, em que o domingo era especialmente camp).

Resta agradecer a todos os que fizeram aquela casa (donos, gerentes, funcionários e, claro está, clientes), por nos darem esta entrada no nosso Queerquivo e, sobretudo, nas nossas vidas.

Vasco Teixeira tem 44 anos, nasceu e vive no Porto. Revê-se nas letras dos Pet Shop Boys e nas cores de Almodóvar.

Ilustração de André Murraças.

 

 

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