Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Blue and White Girl Photo Valentines Day Instagram Post

“Pata pata is the name of the dance”. José Castelo Branco o nome do homem. E é assim que se define. Não chega?

Assumindo uma identidade diametralmente distante do binarismo de género, contestando as fronteiras geometricamente demarcadas, delimitadas, do que é “isto” de ser homem, e da transgressão daquilo que para mim – um miúdo suburbano com oito ou nove anos – foi construído para parecer essencialista e incontestável: José Castelo Branco foi, sem dúvida, uma das primeiras peças do meu puzzle referencial.

A sua visibilidade foi fundamental (como figura que povoava e povoa a reality TV e o imaginário dos muitos que a assistiam, pouco familiarizados à excentricidade e à subversão na televisão portuguesa) para mostrar a multiplicidade de arranjos identitários – à primeira vista repulsivos, confusos, não concordantes; para ser o epicentro de um dos primeiros terramotos ao meu entendimento do real, de como se pode projectar o corpo e o desejo de formas diferentes a que estava habituado, mas que percebo agora terem ajudado a fervilhar a vontade de os viver e experimentar; de como sobreviver às lógicas de gozo e chacota sem esmorecer ou diminuir (a primeira vez que ouvi a palavra bicha ser invertida do seu sentido negativo e contribuir para uma postura algo politizada de autodeterminação foi dele) de uma sociedade excessivamente vigilante do não-normativo; de como a personalidade deve ser mostrada em todas as suas possibilidades, rompendo todas as barreiras do preconceito e os quadros de conflito.

Nasceu dali um admirável mundo novo, que permitiu ampliar os códigos do meu universo, expandindo-se cada vez mais pela imersão na cultura pop, pelos desenhos animados que hegemonizavam a feminilidade, pelos contextos e pessoas que me celebraram a vida inteira – o big bang existencial do miúdo que corria pela casa com os sapatos altos da mãe, que adorava o sabor sintético a cereja do batom e o contraste de cor dos lábios pintados de vermelho, às escondidas para não estragar nada do que estava na grande caixa de pintura da minha mãe; daquele adolescente que reivindicou a sua individualidade como sendo apenas sua –, traduzindo-se num ponto de passagem mais tranquilo, para mim e para outros, numa descoberta serena da minha identidade queer.

Tive a sorte de existir primeiro e pensar-me depois. Para quem não a tem, para quem a sociedade imprime constantemente espartilhos e constrangimentos, gritem como o José: “leave me alone, sua estúpida!”.

Acreditem, sabe mesmo muito bem. 

Gonçalo Cota estudou Sociologia, mora em Lisboa e é redactor na Máquina de Escrever. No Inverno espera que o Verão chegue, no Verão espera que o Inverno chegue (enquanto come figos e ouve Björk). 

Ilustração de André Murraças.

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s