carlos castro

Cresci a conhecer, à distância, Carlos Castro e os seus alter-egos da imprensa que, entretanto, tomou o nome de cor-de-rosa. Enquanto apreciador de romances, desde muito jovem, sempre apreciei o seu talento para falar de personagens da vida real, sem mencioná-las pelo nome próprio. A “Daniela”, que criou para a revista Nova Gente, era, na prática, um moralizador social.

A minha relação com o cronista nunca foi próxima. Encontrámo-nos, frente a frente, duas vezes. O que mais me impressionou nele, em 2007, quando nos conhecemos, foi o facto de ele ter genuinamente gostado do meu livro de estreia em poesia; e tê-lo promovido até na TV, sem eu lho pedir. Reuni com ele pouco depois disso, para uma conversa de agradecimento que se impunha. Estava avisado para ir à defesa, por ele poder tentar algum assédio e ser, dizia-se, uma pessoa má para quem lhe dizia “não”. Ora, o que tive foi uma conversa sobre poesia, em sofás bem distantes um do outro, com um cavalheiro que nem um gesto ou palavra menos própria fez ou disse. Deu-me apenas a sua opinião assertiva: “O Ricardo tem obrigação de continuar a escrever!”.

Pelo fim do Verão de 2009, quando o apanhei no Facebook, pedi-lhe amizade. Disse-lhe que tinha começado a escrever um romance sobre um oportunista da sociedade. Ele pediu-me para eu lhe mandar o que tinha e ficou bastante agradado. Ofereceu-se para me ir dando notas e, mais tarde, até para me prefaciar o livro, se eu quisesse. Em Setembro ou Outubro de 2010 encontrámo-nos pela derradeira vez, em casa dele. Outra vez um cavalheiro, muito entusiasmado em dar-me indicações sobre a feira das festas do social. Era uma altura também em que ele andava muito revoltado, no Facebook, contra a vida em geral; e, em particular, os excessos de excentricidade e provocação de alguns sectores da comunidade gay. E era por lá que eu, volta não volta, lhe dizia para ter calma.

Depois, nos derradeiros meses, teve aquela última fase de inebriamento, em que falava que, afinal, o amor era possível. Ainda me atrevi a dizer-lhe para ter cuidado, porque isto das grandes diferenças de idade normalmente não funcionava nada bem para o mais velho do casal. E ele retorquiu-me que não havia problema, porque daquela vez era a sério.

Por isso, tudo na sua morte me apanhou de choque. A morte em si, primeiro; os contornos bárbaros e horripilantes do assassinato que foram conhecidos, depois; e, finalmente, a realização do quanto Portugal era um país ainda medieval, com as reacções da populaça, quase a glorificar o assassinato do “paneleiro velho”, desviador de “crianças”, às mãos de um “pobre jovem que não sabia o que estava a fazer”.
O momento em que o meu país se levantou, quase em coro, para rejubilar com o assassinato vil e soez de um idoso gay fisicamente indefeso foi também o início da minha militância LGBT. Desliguei-me de todas as pessoas que “torciam” pelo assassino e passei a ser agressivamente contra qualquer aproximação de terceiros à linha vermelha da homofobia.

Carlos Castro tornou-se odiado por ser diferente e foi assassinado por ser gay. A tristeza da sua perda e a raiva pelos moldes em que um oportunista sem moral o levou fizeram de mim um intransigente defensor de (quase) todas as causas LGBT. Numa minoria social, todos somos poucos para lutar por direitos naturais. A morte de Carlos Castro deu-me essa certeza. Felizmente, não tarde demais.

Ricardo Belo de Morais é escritor, radialista, consultor de comunicação e investigador literário, especialista em Fernando Pessoa. Quando escreveu este texto, o último livro que tinha lido foi Sombras de Sombras de Adam Zagajewski. Ainda anseia ler a Bíblia.

Ilustração de André Murraças.

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