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Excêntrico desintegrado das normas sociais, o bailarino Valentim de Barros (1916-1986) esteve preso num hospital psiquiátrico de Lisboa quase toda a vida e foi usado pelo médico Egas Moniz em tratamentos cruéis e degradantes, sem consentimento ou quadro clínico que o justificasse. É símbolo do totalitarismo científico e político anti-homossexual que grassou no século XX português. Internaram-no compulsivamente no Miguel Bombarda, em 1939, por “psicopatia homossexual e pederastia passiva” – único diagnóstico que os médicos registaram no processo clínico – e, em 1948, submeteram-no à leucotomia pré-frontal, uma perfuração do crânio com o objectivo de lesionar áreas do cérebro e reduzir a “agitação” do “doente”. No ano seguinte, Egas Moniz ganha o Nobel da Medicina em reconhecimento pela invenção da leucotomia e o Comité Nobel justifica que a técnica tem “valor terapêutico em certas psicoses”. Mas a Valentim nunca diagnosticaram qualquer psicose. Um crime sem castigo – e 1948 foi ainda ontem, ano da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Eis o que tentei demonstrar com a reportagem que escrevi em 2014 para o site Sapo Mulher e que foi reeditada, em Março de 2015, no blogue Persona Grata, momento a partir do qual muitos milhares de portugueses descobriram Valentim.

A primeira vez que ouvi falar dele terá sido através do professor Fernando Cascais, ou talvez no artigo O Estado Novo dizia que não havia homossexuais, mas perseguia-os, assinado pela jornalista São José Almeida no jornal Público em 2009. Pressenti um fantasma na consciência colectiva. Fascinei-me com a história, investiguei-a por largos meses e encontrei fotografias e documentos inéditos, incluindo o processo clínico, cujo conteúdo a administração do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa tentou impedir que fosse citado, em nome de elevados princípios éticos, como é evidente.

Quantos Valentins não terá havido em Portugal? Falta apurar este passado recente e identificar as normas e os protocolos que continuam, ainda agora, a agredir ou a mutilar cidadãos em nome do poder científico – o que não apaga a boa prática de tantos médicos.

Recuperar esta história, e continuar a estudá-la nos próximos anos, pode finalmente humanizar o bailarino a quem roubaram a vida. Consta que se prepara uma peça de teatro e um livro, até talvez um filme sobre ele – e ainda bem. Valentim esteve toda a vida a guardar-se para não o esquecermos na morte.

Bruno Horta é jornalista e, em 2015, publicou o livro de entrevistas Uma Década Queer.

Ilustração de André Murraças.

 

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