zanatipeter

Estávamos em 2016 quando Ana Zanatti publicou O Sexo Inútil. Recordo-me que estava no meu quarto, em Évora, quando soube da novidade. Fiquei logo curioso. Já tinha ouvido falar da escritora e actriz, mas nunca lhe tinha dado importância até então – porque nem era muito fã dos Morangos com Açúcar, onde ela entrou. Estava mais interessado em coisas estrangeiras do que nacionais.

Porém, à medida que o tempo passou, amadureci: além de começar a apreciar, cada vez mais, aquilo que era nosso, comecei também a olhar para Ana Zanatti. Quando soube do seu livro, fui pesquisar. Vendo do que se tratava, pu-lo imediatamente na minha wishlist da Wook. Comprei-o pouquíssimo tempo depois.

Estava a estudar Psicologia na Universidade de Évora. Lembro-me que, nos tempos em que não tinha aulas ou nas breves pausas sem trabalhos, ia para o parque deliciar-me, sobretudo no Verão, a ler o seu livro – sempre com muita atenção. Sabia que ia ser um livro que me iria abalar. Pelas perspectivas como olho para a vida e pelo modo como encaro os outros…

Sou católico, homossexual e considero-me também conservador – e não tenho problemas nenhuns com isso. Sou “assumido” para todos, até cheguei a publicar um livro. Todavia, antes deste último ponto, aconteceu algo… Na altura em que estava em Évora, estava terrivelmente dividido entre dois rapazes da minha turma, que sabia também gostarem de mim. Mas não queria arriscar, não queria fazer nada: um, porque não tinha juízo nenhum; o outro, porque tinha muito medo. Medo de si, da sua própria orientação, dos outros, dos pais e dos “amigos”… Tinha tanta vontade de os ajudar mas não sabia bem o que fazer ou como o fazer. E recordo-me de estar a ler a história verídica de Joana, com quem Ana trocava mensagens.

Pobre miúda… Dentro de um armário, vivendo numa família rígida, que receava abrir-se para um amor que, no final, não deu certo – pelo menos este. Recordo-me também do testemunho das demais pessoas LGBT. Identifiquei-me, se não com todas, pelo menos com a maioria delas… Recordo-me ainda da minha reacção quando cheguei ao final do livro. Adorei-o! Excelente.

Gostei das várias histórias, pela sua unicidade mas também pelo facto de ter percebido que, afinal, não estamos sós: existem pessoas não só na mesma situação que nós, mas também COMO NÓS. E, se for preciso, é já alguém que está do nosso lado.

O Sexo Inútil de Ana Zanatti veio para abalar consciências, meter em cima da mesa as cartas que ninguém gosta de ver, assim como – e mais importante – para ajudar quem necessita de ser ajudado.

Ana fez frente aos seus pais, “fez-se à vida”. Mesmo sendo “diferente”, sobretudo numa época tão fria, cinzenta e difícil, tornou-se independente, com o respectivo custo e tantos sacrifícios, inclusive financeiros. Depois, a sua paciência e enorme carinho para com Joana… Como não admirá-la?

Ao longo da sua carreira, Ana ocultou a sua orientação sexual, tendo também em conta os desafios e as mentalidades da altura. Porém, não se deixava apagar, não procurava agradar aos outros, ao mesmo tempo que não procurava escandalizar não deixava de ser ela mesma. É claro que Zanatti também cometeu os seus erros. Mas, além de não existirem pessoas perfeitas, pergunto: quem é que nunca errou?

A sua coragem, força, talento e criatividade vão além da sua orientação sexual. Mas fico feliz por, em 2016, ter criado um livro LGBT: que fala de nós; que, com testemunhos verídicos, nos mostra que não somos poucos. É sempre bom sabermos dos demais iguais a nós.

Esta sua coragem para semelhante acto (embora já tenha escrito outros livros com a mesma temática) foi absolutamente necessária: está a guiar jovens, a servir de consolo a muitos, a servir de orientação, a dar indicações a pais. O facto de se ter assumido publicamente, em 2009, só lhe reforçou ainda mais o valor que conquistou.

É uma das figuras públicas portuguesas mais conhecidas, inclusive na esfera LGBT. Mesmo que parasse por agora, guardá-la-ia para sempre no meu coração. Quem me dera ter tido esta Ana de hoje quando era mais novo. À geração de agora, resta-me mostrar-lhes e “ensinar-lhes” quem é Ana Zanatti.

A 25 de Novembro do ano passado, publiquei o meu primeiro livro. Enquanto estava a trabalhar para conseguir lançá-lo, recordo-me de estar no meu trabalho, a servir cafés, e a pensar: “Será que deves mesmo ir em frente?” quando, na realidade, a pergunta deveria ser “Consegues mesmo fazer isto?”. E lembro-me de estar na esplanada, num momento em que não havia clientes e com o sol quente a bater, de pensar firmemente: “Se a Ana conseguiu, então tu também consegues!”.

É verdade que não há muita comparação, mas a sua coragem, a sua audácia e a sua autenticidade, o facto de ter enfrentado os pais, são como que um farol para mim. E, nas vezes que me recordo dela, não só me dá força como também me recorda, enquanto pessoa LGBT, que se quiser alguma coisa, tenho que trabalhar MUITO para isso. Tal como ela trabalhou. Recorda-me que nós, pessoas LGBT de hoje, também conseguimos ter “o estilo de vida” que Ana tem, sobretudo porque ela passou por tanto e num tempo bem mais difícil.

Corajosa, audaz, autêntica e muito talentosa, Ana ficará para sempre na história portuguesa, inclusive na LGBT. Não só pelos seus feitos mas também pela sua força, garra e perseverança. Ensinando-nos que se nós, pessoas LGBT, queremos algo, temos de lutar, trabalhar e empenharmo-nos para isso. E ainda que, se quisermos ser felizes, teremos de ser sempre nós próprios, mesmo que haja um dia para começar.

Deste teu açoriano, que sempre te admirará e te adorará muitíssimo.

Pedro Michel Parks, 25 anos, vive na ilha de São Miguel, Açores. É estudante de mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde na Universidade da Beira Interior. É homossexual, católico e conservador. Adora ler, escrever, estar com os amigos e pensar de que modo pode melhorar o mundo. Em 2017, publicou o seu primeiro romance histórico LGBT, pela Chiado Editora, O Amor em Tempo de Trevas. 

Ilustração de André Murraças.

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