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Será breve esta nota. Quase um capricho.

Percebi há pouco tempo o quanto o dramaturgo Bernardo Santareno foi importante para mim, não só a nível pessoal mas também enquanto adolescente que fazia teatro na escola, ao sábado à tarde, e queria seguir aquilo, encontrando-se então nos anos da sede por ver e ler tudo o que existia nesse mundo.

Para mim, o teatro era, na altura, as peças clássicas, conhecidas, vá. Havia que começar por algum lado. As coisas mais fora da norma chamavam-se café-concerto da Comuna ou a versão levezinha que acontecia também no teatro do liceu. Depois havia o Acarte e o Lisboa 94 que me deixaram entrar aos poucos em mundos desconhecidos – e que me diziam muito mais.

Mas antes disso, não muito antes mas antes – e isso é importante, foi importante – houve a descoberta de um livro. Uma peça de teatro. Chama-se O Pecado de João Agonia e é escrita por Bernardo Santareno. A extensa biblioteca lá de casa tinha vários livros de teatro, daqueles antigos da Ática.

Este texto de teatro passa-se nos anos 60 e fala de um rapaz do interior que volta a casa depois de fazer o serviço militar em Lisboa. Na capital tinha-se envolvido num “escândalo” que o levou a passar dias na prisão. Esse segredo é revelado à família e a tragédia exibe-se. “Não há pecado mais vergonhoso”, sublinhei.

Quando li a peça não foi o tema nem a sua dramatização que me chocaram. De facto, o que encontrei ali foi, num primeiro momento, um espanto. Depois veio uma gratidão eterna por um artista que arriscava a vida com a escrita.

De seguida, li tudo de Santareno. Cada texto dele falava de coisas que, na altura, não se deveria falar. Na altura… Ainda hoje qualquer peça de Santareno terá o seu efeito. Seja ele em cena, seja ele num qualquer rapaz com um futuro pela frente.

A porta estava aberta. Santareno fez-me ver que se podia escrever assim. E que se deveria escrever assim. Por aqueles anos calhou também estrear uma peça chamada Terminal Bar, no Teatro da Graça – um espectáculo estranhíssimo com uma então estreante Alexandra Lencastre. Uma peça sobre uma doença sem nome. E também por aquela altura, pequenas notícias no Sete sobre uma outra peça na Broadway – Angels in America. E outras, tantas outras coisas diferentes, para onde hoje olho com carinho e reconhecendo a sua importância na minha formação enquanto artista, espectador e cidadão. Uma porta que nunca mais se fechou.

Texto e ilustração de André Murraças. Tem 42 anos, vive em Lisboa. Gosta de ovos Benedict. Quando escreveu este texto, estava a ler Less, de Andrew Sean Greer. Não gosta de ar condicionado.

 

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