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Conheci os filmes do João Pedro e do João Rui alguns anos antes de os conhecer a eles.

Foram dos primeiros filmes que vi quando comecei a minha incursão pelo cinema português. Todos me tocaram, cada um à sua maneira: do desejo nocturno e feroz de O Fantasma, ao melodramático e exuberante fado de Morrer Como Um Homem, passando pela identidade, sensualidade e sexualidade fluidas de Odete. Os protagonistas, ostracizados pela sociedade e muitas vezes até pelos próprios familiares e amigos, eram “bichos” encurralados na sua existência, deambulando numa Lisboa que não é a dos postais turísticos. Ao retratarem (sub)mundos tão distantes da minha vida pacata e by the book, os três filmes ajudaram a expandir o meu mundinho.

Entrevistei o Luís Alegre – amigo de longa data dos “Joões” e designer dos cartazes dos seus filmes – em 2014, durante o meu mestrado. Estava longe de imaginar que, dois anos depois, estaria a aceitar o desafio de colaborar com eles, no design do material promocional de O Ornitólogo, quando faltavam pouco mais de três semanas para o filme ter a sua estreia mundial em Locarno, em Agosto de 2016.

Encontrei-me com eles à frente ao Mercado Municipal de Vila do Conde, durante o Curtas. Eu estava nervoso, qual fan boy prestes a conhecer duas superstars de quem era fã. Não é todos os dias que tal acontece. Apesar de extremamente afáveis e simpáticos, ambos emanavam – inadvertidamente – um pouco dessa aura de superstars: todas as pessoas sabiam quem eles eram, muitas os cumprimentavam. O Curtas fervilhava com filmes e festas e começava a contagem decrescente rumo a Locarno.

Tê-los “só para mim”, no Porto, durante o fim-de-semana em que trabalhámos no cartaz (com a maravilhosa pintura do João Gabriel Pereira), no booklet e nos postais foi… qualquer coisa. Nunca acompanhei nenhuma rodagem, mas se os “Joões” escreverem e filmarem com a mesma minúcia e cuidado que investiram no material gráfico de O Ornitólogo – e estou certo que o fazem – então a qualidade dos seus filmes está justificada. O João Rui tem olho clínico, de art director: vibra com o potencial da articulação entre imagem e texto, compreende a importância dos alinhamentos e das hierarquias visuais, dos logótipos (ou louros de festivais, que não eram poucos!) convertidos em vector, monocromáticos e espaçados de forma equidistante e equilibrada. Já o João Pedro, embrenhado nos textos e traduções da biografia de Santo António, da nota de intenções, da sinopse – onde cada palavra escrita é pe(n)sada – sabe perfeitamente o que se de adequa ou não ao mood visual do filme que idealizaram. Percebe-se que os dois se complementam. No trabalho e na vida.

Espero que continuem a filmar por muitos e longos anos, e que mais jovens descubram os seus filmes. Já nos voltámos a cruzar desde então, e espero voltar a vê-los mais vezes. Mas os “Joões” são cidadãos do mundo e Portugal uma gaiola demasiado pequena, que não os prende por mais do que algumas semanas seguidas.

Igor Ramos gosta muito de ouvir Dido em qualquer ocasião, e não gosta de pessoas que não sabem comportar-se numa sala de cinema. 

Ilustração de André Murraças.

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