laura alves
Laura Alves entra em palco, aos cinco anos de idade, na peça Os Vinte Mil Dólares, na Associação Recreativa Triângulo Vermelho, que ficava mesmo em frente ao prédio onde nasceu. Naquela rua de S. Bento, alfacinha e popular, já a Lalá era conhecida por recitar versos da varanda de sua casa. Com um grande laço nos cabelos, acedia aos pedidos da gente miúda, que, parada à porta da Associação, rompia em palmas e exigia – tal como mais tarde haviam de fazer as plateias – que ela prosseguisse, que ela repetisse: “Ó Lalá, só mais uma vez!”. Na Escola Machado de Castro, a Lalá apanhava fortes reprimendas dos professores, pois só se interessava por recitais e entremezes escolares: ensaiava, marcava os quadros, dirigia as danças, desenhava e cortava em papel colorido os vestidos de todas as bailarinas. E depois, quando chegava o dia da récita, os colegas, professores e família ficavam todos encantados com o talento daquela miúda de olhos muito brilhantes e boca sempre a sorrir. Um dos professores da Lalá, Armando de Lucena, era amigo do escritor de revista Lino Ferreira: um dia desafia-o para vir aqui à escola ver uma festa de alunos onde entrava a Lalá.

Meses depois, com 13 anos de idade, Laura Alves estreia-se no teatro profissional, na companhia de Alves da Cunha, no melodrama francês de grande êxito Duas Garotas de Paris, no Teatro Politeama, em 1935. Assim começa a sua carreira, ingressando a seguir na Companhia do Teatro Nacional. Na estreia dessa peça, que foi ensaiada por Palmira Bastos, Laura obteve o seu primeiro êxito pessoal, o que lhe valeu uma forte reprimenda da inflexível ensaiadora: em determinado momento da representação, Laura Alves, a rapariga, dizia a sua declaração de amor ao «rapaz», um travesti feito por Maria Lalande. E tão bem disse que o público interrompeu a representação com uma calorosa salva de palmas. Laurinha logo veio, rápida, agradecer as palmas à boca de cena, voltando depois para o lugar da sua marcação junto de Lalande. Quando saiu de cena, logo ali nos bastidores, levou uma reprimenda da severa maestrina do teatro, que lhe ensinou que quando o público interrompe uma cena, os intérpretes devem apenas suspender o diálogo, esperar, imóveis, que as palmas terminem, para continuar com a representação como se nada tivesse acontecido.

É Eduardo Schwalbach – o comediógrafo e autor de revistas, que foi também director do Diário de Notícias – que, através do seu jornal, consegue custear os estudos de Laura Alves na Escola Machado de Castro. Laura matricula-se no curso de Química Analista mas o teatro depressa a obriga a interrompê-lo. No Nacional interpreta, de Schwalbach, A Feira do Diabo, ao lado de grandes nomes da cena portuguesa da época, como Palmira, Amélia, Nascimento Fernandes e Lucília Simões.

Após a temporada no Nacional, seguiu-se uma breve passagem pela companhia de Aura Abranches. Já adolescente, entra no Teatro do Povo, dirigido por Francisco Ribeiro. É Ribeirinho que dá, em 1941, a grande oportunidade a Laura Alves, fazendo-a interpretar uma opereta de que era autor, com Armando Vieira Pinto. Em Lisboa 1900, Laura interpretava um papel de criadinha exuberante e maliciosa de um retiro típico de Lisboa do princípio do século, que logo a torna um caso de popularidade invulgar. A força de comunicação, o talento popular de Laura, afirma-se plenamente na revista, onde logo é primeiríssima figura. Estava descoberta a grande actriz que, no século XX, iria continuar a tradição de Pepa Ruiz, Ângela Pinto e Adelina Abranches, columbinas vindas dos teatros de feira do século XIX. Laura Alves seria logo comparada com Beatriz Costa, que, aliás, imita com enorme sucesso, na revista O Senhor da Pedra, em 1942. Porém, era desnecessário esse confronto, pois Laura iria, num ápice, ser a vedeta absoluta da revista à portuguesa. Popular e elegante, sabe cantar e dançar, descendo escadarias com o mesmo talento com que tem o público na mão numa rábula de imediata cumplicidade. Em 1943 brilha ao lado de João Villaret, na revista Margarida Vai à Fonte. Depois, no Avenida, faz duas temporadas sucessivas, numa companhia dirigida por Rosa Mateus, em que, com genica e transbordante fantasia, Laura Alves se afirma em sucessivas revistas e operetas, como primeiríssima figura do nosso teatro ligeiro.

Em 1944, partilha com Estêvão Amarante o enorme triunfo que foi o Zé do Telhado, a que se seguem as revistas O Jogo do Diabo (1944), A Patuscada (1945), no Teatro Avenida, Estás na Luta (1946), no Teatro Apolo, ao lado de Amália. Apenas com 25 anos, Laura Alves revela todas as suas facetas na óptima revista de Piero, Tá Bem ou não Tá, desmultiplicando-se em números, dançando swings, comandando com garbo as apoteoses. Mudando de género, Laura Alves faz boas temporadas na comédia Casei com Um Anjo e em Chuva de Menino”, êxitos que repetirá anos mais tarde nos momentos de crise do Monumental.

É tal o desejo de multiplicação que, em 1950, dirigida por Mestre António Pedro, apresenta no Odeon um espectáculo de peças em um acto, especialmente escritas para ela, de que é a única intérprete: Laura Alves e os Seus Fantoches. Por volta de 1945, Laura conhece Vasco Morgado, então galã de cinema, “com o cabelo pintado de loiro”, porque ia representar D. Sebastião no filme que Leitão de Barros nunca chegaria a rodar. É na antiga Feira Popular, ali em S. Sebastião, que Laura conhece o jovem galã. Conta-se que, na altura, não havia empresários, e que Laura, em sociedade com Irene Isidro, António Silva e Ribeirinho, explorava o Teatro Apolo. Ali foram levadas à cena duas revistas de grande sucesso: Enquanto Houver Santo António e Aguenta-te, Zé. Porém, o negócio faliu e era preciso um empresário. “Se não há nenhum empresário, e se vocês precisam de um empresário, então eu vou ser empresário!”, disse o decidido Vasco Morgado.

E assim nasceu o sonho que iria inaugurar o Teatro Monumental, com As Três Valsas, Laura até aprendeu a dançar em pontas, ao lado de Villaret, Tomás Alcaide e Bento José da Câmara – o actor, o cantor e o bailarino.

Abre-se o palco onde Laura Alves havia de ter, mais do que os maiores sucessos, o seu corpo, a sua alma, a sua vida.

Já durante a construção do Teatro Monumental vários boatos corriam de boca em boca, vários nomes eram dados como certos… Quando o teatro estava para abrir as suas portas, soube-se finalmente a verdade: Vasco Morgado seria o arrendatário e formaria uma companhia com Laura Alves à frente do elenco. A peça escolhida era um grande êxito de Yvonne Printemps, de Paris. Quando o pano subiu, o cenário e os intérpretes mereceram logo palmas. Laura desmultiplicava-se em três papéis diferentes, dançando desde o can-can ao bailado clássico.

Lisboa Nova, em 1952, também ao lado de Villaret, iniciaria as revistas do Monumental – que no seu título teriam quase sempre a palavra “Lisboa” – e seria um grande êxito que atrairia ao novo teatro o público das Avenidas Novas, que assim trocavam o velho Parque Mayer pelo moderno Monumental. Em O Homem Que Veio para Jantar, Laura desempenhava o papel criado no cinema pela genial Bette Davis. A ambição de Laura leva-a ao desafio de interpretar Shakespeare. A Fera Amansada sobe à cena, contracenando com Raul de Carvalho, carismático actor do Teatro Nacional. Laura encontra na velha comédia isabelina um papel à sua medida, a indomável Katy, na qual emprega toda a energia, a força, o estudo e o temperamento do seu deslumbrante talento. Depois de Shakespeare, Alexandre Casona, A Sereia do Mar e da Terra, em que a ânsia da renovação e o arrojo de Vasco Morgado traz para a realização do cenário desta peça a genialidade de Mestre Almada Negreiros.

Em 1953, o Teatro Monumental entra no seu terceiro ano de existência e Laura Alves volta à opereta em Maria da Fonte, uma deslumbrante montagem de Pinto de Campos, que Vasco Morgado faz regressar de um forçado exílio. No mesmo ano, Laura e Irene Isidro encabeçam o elenco de Viva o Luxo, onde Laura é insuperável na rábula de “Charlot”, género em que podia patentear toda a sua fantasia e excelente jogo mímico. A comédia Ela não Gostava do Patrão, em que se revelou o jovem actor Rogério Paulo, inicia as célebres comédias em que Laura defende, com o seu enorme talento, os naturais e tortuosos desaires da empresa.

Em 1954, Laura interpreta a peça de Costa Ferreira, Atrás da Porta e Touros de Morte, ao lado de Mirita Casimiro, grande actriz popular que neste espectáculo se despedia do público português para uma prolongada ausência no Brasil. Em A Menina Feia, de Manuel Frederico Pressler, Laura tem uma das suas interpretações de maior agrado, na pobre e feia rapariga que se transforma numa elegante mulher.

O encontro no teatro de Laura Alves com Vasco Santana dá-se nesse ano no Teatro Variedades, na revista Mulheres Há Muitas, onde Laura tem um número histórico do teatro de revista, o célebre “Palhaço Pobre”, que depois seria diversas vezes repetido por outros artistas, nunca fazendo esquecer aos velhos coiós de teatro a composição genial de Laura.

Vasco Santana vem para o Teatro Monumental, onde, com Laura, faz a comédia Perdeu-se Um Marido. Porém, Laura, sempre desejosa de desafiar o seu talento em voos mais altos, arrisca-se a fazer Um Crime Perfeito, a versão teatral do filme de Hitchcock Chamada para a Morte, ao lado do inesquecível actor que foi Augusto Figueiredo. E de novo Alexandre Casona com É Proibido Suicidar-se na Primavera. Em 1954, representa Sua Alteza, a que se segue a mais célebre revista do Teatro Monumental: As Melodias de Lisboa. Laura e Villaret aguentam sozinhos quase um espectáculo inteiro, desenhado em tons pastéis por Pinto de Campo, onde Laura tem outra rábula antológica da história da revista à portuguesa: a vedeta do cinema mudo, charge às mudas divas, que, tal como a revista da época, devido à censura, não podiam falar. Em Jogos de Damas, de Ramada Curto, Laura teve a seu lado dois grandes monstros sagrados da cena portuguesa: João Villaret e José Gamboa. E com A Conspiradora, de Vasco Mendonça Alves, Laura representa ao lado, mais uma vez, de Palmira Bastos, convidada especial de Vasco Morgado. Em 1956, Vasco Santana e Laura Alves encabeçam o elenco de Daqui Fala o Morto, comédia espanhola, depois repetida várias vezes e que, logo nesse ano, foi um sucesso e bateu um recorde de bilheteira.

A última revista de Laura Alves seria Música, Mulheres, e…, em que Laura, ao lado de jovens actores como Raul Solnado e Camilo de Oliveira, lança a sua canção O Zé Povinho, única gravação discográfica que chegou aos nossos dias da passagem de Laura Alves pelo teatro musical. O desejo de perfeição de Laura e a sua paixão pelo bailado levam-na a dançar A Severa, ao lado de Águeda Sena e Fernando Lima, interpretando o papel de Custódia. Após esta revista, a carreira de Laura Alves centra-se exclusivamente na comédia. Em O Cardeal, um drama histórico, Laura reencontra Assis Pacheco e Brunilde Júdice, numa tentativa de desempenhar um papel dramático, o que sempre ambicionara fazer. Mas é em Os BebésA Nora Ideal e Um Fantasma Chamado Isabel que Laura tem os tão desejados êxitos de bilheteira. Depois, encabeçando elencos de actores jovens com Paulo Renato, Armando Cortês, Ruy de Carvalho ou Artur Semedo, arrasta multidões ao Monumental em A Oitava Mulher do Milionário e Quando Elas Se Encontram.

Em 1959, tem um dos maiores êxitos da sua carreira em A Rainha do Ferro-Velho, comédia americana de Ruth Gordon, que no cinema teve a sua versão em Born Yesterday, valendo a Judy Holliday um Óscar. Porém, o desempenho de Laura Alves excedia em muito o da artista americana, tal era a sua composição de corista, amante do milionário que toma consciência do ser humano que é. Pela primeira vez, em pleno auge do salazarismo, uma actriz pronuncia em cena a palavra fascista. Laura tinha lutado muito para a peça passar na censura, inclusivamente ameaçou ir para a Avenida da Liberdade com cartazes.

Nunca o cinema português aproveitou ou teve realizadores de talento que soubessem dar a Laura um papel à sua altura. Laura tinha a força de Anna Magnani e o talento patético de uma Giulietta Masina. Apenas Um Marido Solteiro, de Fernando Garcia, consegue dar uma pálida ideia da sua garra e da sua inesgotável energia. Ainda muito nova tinha participado em O Pai Tirano, de António Lopes Ribeiro, exemplar filme popular português, e em O Pátio das Cantigas, de Francisco Ribeiro. Mais tarde, tem uma engraçadíssima criação em O Leão da Estrela, de Arthur Duarte. O Costa de África, a versão cinematográfica de Perdigão Queiroga da comédia de Manuel Frederico Pressler, Perdeu-se Um Marido e Parque das Ilusões são as suas participações no cinema nacional.

Em 1959, Laura encontra no texto de Edgar Neville, O Baile, outro papel à sua altura, contracenando com os seus dois eternos galãs: Paulo Renato e Ruy de Carvalho, numa encenação exemplar de António Pedro, que a seguir a dirige em Gata em Telhado de Zinco Quente, de Tennessee Williams, um ambicioso projecto que sofria a priori com a comparação à versão cinematográfica.

Mas Laura Alves é sobretudo uma actriz de musical comedy e é em Margarida da Rua e Boa-Noite Betina, dirigida por António do Cabo, que Laura atinge o auge da sua carreira, cantando, dançando e representando. Nunca se compreendeu porque não interpretou My Fair LadyMame ou Sweet Charity, personagens que pareciam talhadas para o seu excepcional talento. Por essa altura, declina um convite para ser vedeta no Folies Bergères, de Paris, presa que está à empresa de Vasco Morgado, que agora se estende por quase todos os teatros de Lisboa e Porto. Mas Laura é a base de sustentação da empresa, sacrificando o seu talento em dezenas de comédias, “para salvar a situação”, quando não era obrigada a penhorar as suas jóias para pagar os desaires da empresa.

Em 1962, é chamada por Edgar Marques para interpretar, na Emissora Nacional, Meu Amor É Traiçoeiro, a peça de Vasco Mendonça Alves que tinha sido uma grande criação de Ilda Stichini. Laura não gostava da peça. O autor achava a sua Ilda insubstituível, pois já Brunilde Júdice havia interpretado o papel da vendedeira de figos Maria Rosa. Vasco Morgado fez a peça passar da rádio para o Monumental e Meu Amor É Traiçoeiro foi um dos maiores êxitos de Laura: dois anos em cena, digressão ao Brasil, Madrid e África.

Criada para Todo o ServiçoA IdiotaO Comprador de HorasA Rapariga do ApartamentoA Mulher de Roupão e A Querida Mamã são boas interpretações de Laura Alves que pretende agora trazer, para o palco do Monumental, os maiores êxitos de comédia do West End londrino, do Boulevard francês ou espanhol e da Broadway, sempre com a eterna preocupação da bilheteira que tinha forçosamente que manter uma grande empresa.

Por vezes, Laura tenta um teatro de preocupações mais literárias e sociais, como em A Promessa de Bernardo Santareno, mas é em Flor do Cacto, de Brillet et Grédy, criações de Lauren Bacall em Nova Iorque, Sophie Desmarais em Paris e Margaret Leighton, em Londres, que Laura Alves tem uma interpretação inultrapassável.

Outras comédias – A Pobre MilionáriaA Menina Alice e o Inspector – marcaram o terceiro acto da vida de Laura Alves – último e trágico acto, que tem a sua subida de pano em Adeus, Valentina, signo e adeus a uma época que iria acabar. Com bastante injustiça se tratou nessa altura Vasco Morgado, com impiedosa e feroz arrogância se tentou desprezar uma actriz como Laura Alves. Triste, muito triste, foi a utilização do talento da grande comediante para peças-comício tão em voga em todos os quadrantes políticos da época. Aqui Quem Manda Sou Eu e a versão cor-de-rosa da peça de Joe Orton Mr. Sloane, com o título Uma Estranha Forma de Amor, seriam as últimas peças de Laura Alves antes de Um Zero à Esquerda.

Mas o público conservou-se-lhe fiel e ia aplaudi-la, até a sua saúde a impedir de continuar, levando-a a isolar-se de todos até ao final, escondida debaixo dos seus óculos escuros e do lenço a tapar-lhe os cabelos pintados. Com Ribeirinho em Não Há Nada Que Me Escape e Pai Precisa-se, Laura sai definitivamente de cena.

Com a morte de Vasco Morgado, a criminosa destruição do Monumental, o fecho do teatro com o seu nome, finaliza – de uma maneira que a todos nós deve envergonhar – a vida daquela que foi a maior actriz de comédia e do teatro de revista do nosso século. Para um país onde os artistas não são amados, não deve ser importante esta homenagem a Laura Alves, vinda de um aluno da Escola Machado de Castro, a escola onde Lalá subia ao palco, ensaiava, desenhava e cortava em papel colorido todos os vestidos. É desse sonho que é feito o teatro, pequeno e efémero momento de eternidade que logo se apaga e se esquece.

Filipe La Féria é um encenador português. Dirigiu a Casa da Comédia nos anos 70 e, actualmente, o Teatro Politeama. Estreou-se em 1963 no Teatro Nacional D. Maria II com Amélia Rey Colaço. Encenou Marguerite Yourcenar, Mishima, Marguerite Duras ou Pasolini.

Laura Alves nasceu em Lisboa. Aos cinco anos, passava horas a recitar versos na varanda da casa onde vivia. 

Ilustração de André Murraças.

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