veraoquente
Entre Outubro de 1993 e Abril de 1994, a RTP1 exibiu a telenovela portuguesa Verão Quente, da autoria de Manuel Arouca e Nicolau Breyner. Com um total de 130 episódios, é uma das poucas telenovelas portuguesas que me lembro de seguir no final da minha adolescência. Em Verão Quente, encontrei aquela que recordo ser a primeira personagem homossexual numa produção nacional daquele formato: o Duarte Vale, interpretado pelo Rui Luís Brás.

A novela não fez história, não conquistou audiências extraordinárias. Nem a participação da famosa actriz brasileira Betty Faria conquistou o público. Contudo, o Duarte Vale conquistou o meu coração.

Nasci em Dezembro de 1974. Nunca fui precoce e, com 18 anos, vivia os típicos tempos conturbados da tentativa de aceitação e afirmação da minha homossexualidade. Na altura, numa pequena cidade do Algarve litoral, poucos eram aqueles que assumiam publicamente a sua orientação sexual. Obviamente, tinha medo.

Foi então que conheci o Duarte. O Duarte, acabou por ser, para mim, mais do que uma personagem numa telenovela. O Duarte era o homossexual com que, de certo modo, me identificava e onde me reconhecia. Foi uma espécie de porto de abrigo no último ano do secundário.

Lembro-me particularmente de um episódio que, para mim, foi marcante. Numa cena, o Duarte confessava a sua homossexualidade ao seu amigo Zé, interpretado pelo Manuel Wiborg. E ali estava tudo. Tudo aquilo que eu acreditava que poderia ser e que, eventualmente, gostaria que acontecesse comigo. O Zé era o amigo do Duarte que não o julgava e que o aceitava tal como ele era. Tão simples quanto isto. Gravei o episódio numa cassete VHS. Aquela cena era digna de registo e constantes revisitações.

Na minha cabeça, na altura, assumir a homossexualidade era algo confuso e perturbante. E trazia consigo a eventual desilusão dos pais, o afastamento dos amigos, e o julgamento da sociedade. Mas, ali, naquele pequeno ecrã, as coisas não eram assim tão complicadas.

Com a cena gravada em VHS, decidi mostrá-la à minha mãe. Foi uma espécie de pré-coming out. Mostrei-lhe a cena e reparei que chorava. Não era muito difícil: o Duarte conseguia comover. Mas entendi as lágrimas da minha mãe como um claro entendimento da confissão que lhe pretendia fazer. Afinal, pensava, as mães sabem sempre tudo.

Anos passaram. Só quando terminei a licenciatura é que decidi ter uma clara e inequívoca conversa com a minha mãe. Na altura, cheguei a pensar que não lhe iria dar novidade nenhuma, pois já tínhamos partilhado o episódio do Duarte do Verão Quente. Não podia estar mais enganado. Foi uma surpresa. Felizmente, uma boa surpresa. Afinal, as mães não sabem sempre tudo.

Após a conversa com a minha mãe, cheguei a pensar na cena do Duarte do Verão Quente. Afinal aquele meu plano de mostrar aquela cena como pré-coming out não tinha funcionado de todo. Então porque chorou a minha mãe? Nunca lhe cheguei a perguntar. Mas hoje, também, não vejo qualquer necessidade.

Luís Campião é escritor. Adora as cascatas do Gerês no Verão. Detesta burocracia.

Ilustração de André Murraças.

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