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O meu primeiro contacto com Fernando Pessoa data dos bancos da escola. Tive também um amigo de infância, que era poeta, que gostava de Fernando Pessoa e falava muito dele. Pouco a pouco, fui adquirindo livros de Fernando Pessoa e o gosto por este poeta. Ainda me lembro de passar horas, sentado no banco do jardim da localidade de onde sou natural, a ler e a tentar compreender Fernando Pessoa (pois eu era ainda um adolescente).

Mas o Fernando Pessoa que me ensinaram na escola, e de que se falava e fala, era e é apenas uma parte de Fernando Pessoa. O grande público desconhece o outro Fernando Pessoa – e aqueles que o conhecem geralmente não falam nisso. Estou a referir-me à homossexualidade em Fernando Pessoa. Desde sempre houve rumores sobre a sua homossexualidade, mesmo da parte de alguns investigadores, que a supunham, mas que a consideravam uma questão de pouca importância. Suspeitei que esta indiferença perante a homossexualidade em Fernando Pessoa se devesse ao preconceito e, por outro lado, ao desconhecimento sobre a profundidade e a complexidade deste poeta.

Lentamente comecei a pesquisar mais poemas e textos em prosa, juntando-os aos que já tinha guardado. Surgiu algo inesperado: à medida que eu ia lendo a vasta obra deste autor, deparava-me com cada vez mais textos homoeróticos. Fiquei surpreendido perante a quantidade de poemas homoeróticos e perante a quantidade de outros textos em que Fernando Pessoa fala ou faz alusões à homossexualidade. Senti também uma certa indignação perante a ignorância ou a hipocrisia escolar, académica, jornalística e do grande público que não vê, ou finge que não vê, ou não quer saber, da homossexualidade em Fernando Pessoa (e há mesmo alguns indivíduos que não acreditam).

Muitos desses textos de Fernando Pessoa passam despercebidos no meio da sua vasta obra, como por exemplo nos três grandes volumes de toda a sua poesia reunida. O meu trabalho foi estar muito atento a cada poema, ou a cada texto em prosa, e sempre que encontrava um poema homoerótico, ou um texto em prosa em que Fernando Pessoa falasse em homossexualidade, passei a fazer uma “colecção” de textos, digamos assim. De maneira nenhuma imaginava que fossem tantos. Contactei também alguns investigadores e especialistas em Fernando Pessoa, para me esclarecerem algumas dúvidas: alguns recusaram, outros foram muito esquivos e outros colaboraram (apesar de, publicamente, não falarem sobre isso, e fingirem que não se interessam por este tema). Por outro lado, contactei também com o espólio dos manuscritos de Fernando Pessoa, à guarda da Biblioteca Nacional, e encontrei alguns inéditos (eu mesmo decifrei alguns, e outros pedi que mos decifrassem). Finalmente encontrei também textos de Fernando Pessoa que não estavam traduzidos, nos quais ele fala de homossexualidade (mesmo que o tema do textos seja outro, como análise literária, por exemplo), e traduzi-os.

De tudo isto resultou um volumoso trabalho de recolha, que reuni, organizei, anotei e prefaciei, para o publicar. Mas encontrei muitas recusas por parte das editoras: ou porque o livro era muito grande ou porque havia preconceito em o publicar. Até que, finalmente este ano, consegui publicar o livro, que intitulei Homossexualidade e Homoerotismo em Fernando Pessoa, sobre o qual se pode dizer que é um acontecimento no panorama editorial português, devido ao facto de ser o primeiro livro que é publicado sobre este tema, e de ser sobre Fernando Pessoa. Nos congressos, e outros encontros sobre este autor, assim como nos artigos e livros que se publicam sobre ele, falam-se e discutem-se muitos temas (pois ele escreveu sobre muitos temas), mas não se fala na homossexualidade em Fernando Pessoa – ou fala-se muito raramente, fazendo disso um não-assunto, o que é estranho. Isso surpreende-me muito vindo de indivíduos académicos, que tinham a obrigação de serem mais esclarecidos e menos preconceituosos.

Fernando Pessoa é um poeta fascinante, e profundo mas, ao mesmo tempo, muito deprimido, pois reprimiu muito a sua homossexualidade, do que resultou uma certa sublimação canalizada para a literatura. Algumas pessoas deixam-se enganar pelo facto de ele durante uns meses ter tido um caso com Ofélia Queiroz e de terem trocado cartas, esquecendo ou ignorando que sempre houve e continua a haver muitos homossexuais que numa dada fase da sua vida tiveram um caso com uma mulher. Há que não se deixar enganar, nem mesmo pelo fingimento de Fernando Pessoa, um fingimento-máscara que ele próprio também cultivou.

Alguns dos poemas homoeróticos de Fernando Pessoa não são de fácil leitura: tem que se estar com atenção à linguagem e às metáforas, pois trata-se de poesia; mas noutros poemas ele é bem explícito e, portanto, só não vê quem não quer. A afectividade, o amor e a sexualidade são uma componente muito importante no ser humano. Considero que o facto de ser homossexual fez de Fernando Pessoa um indivíduo muito angustiado, que não se aceitava e era muito reservado (ao contrário do seu amigo homossexual António Botto, que ele defendeu em vários escritos). Do ponto de vista literário, os poemas homoeróticos de Fernando Pessoa são muito belos. No entanto, infelizmente, não considero que ele seja um modelo de homossexual desejável: por um lado, porque se reprimiu muito, e vivia mal com a sua homossexualidade; por outro lado, porque era misógino (aversão em relação às mulheres), podendo levar a opinião pública a pensar que os homossexuais são misóginos – o que não é verdade, pois o facto de não se gostar de mulheres do ponto de vista afectivo não significa que se seja misógino (há muitos homossexuais que têm mulheres de quem são amigos).

Nos tempos de hoje podemos, finalmente, pôr a descoberto o homoerotismo e a homossexualidade em Fernando Pessoa, mas ainda há inéditos a descobrir. Também falta ainda pôr mais gente a falar sobre este assunto, principalmente os investigadores, sem terem receio, pois falar nisso não significa ser-se homossexual (e penso que é disso que muitos investigadores têm receio). Por outro lado, o grande público deve também conhecer quem era realmente Fernando Pessoa e deixar-se surpreender. O grande interesse pela homossexualidade existe em Fernando Pessoa, até mesmo quando ele fala noutros temas, como por exemplo nas análises literárias. A homossexualidade é um tema e um problema muito importante na sua obra e na sua personalidade.

Há que o ler e descobrir mais, pois Fernando Pessoa escreveu muito – e a maior parte do que escreveu é pouco conhecido. É surpreendente como é que um homem pôde ter escrito tanto, mas ainda bem que o fez, pois assim temos um dos maiores autores da literatura portuguesa e universal, que tanto nos ensina sobre a condição humana, e com o qual temos todos muito que aprender.

Victor Correia é professor de Filosofia e continua a investigar e a escrever sobre vários assuntos. Gosta do belo. Não gosta de barulho.

Fernando Pessoa, nascido Fernando António Nogueira Pessoa, foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português.

Ilustração de André Murraças.

 

 

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