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Soube da existência de Valentim de Barros pelo artigo de Maria João Avillez para o Expresso-Revista de 10 de Maio de 1980. Os meus vinte anos ficaram imediatamente impressionados com a história daquele homem que passou toda a vida enclausurado num hospital psiquiátrico. Percebi que o que não podia deixar de estar por detrás do internamento me dizia respeito (e como!), por mais que a entrevistadora se esforçasse por dissimular o verdadeiro motivo; e sobretudo porque, ao mesmo tempo, ela insistia na culpa colectiva de uma sociedade que assim tratava, e permitia que se tratasse, alguém que, adivinhava-se claramente, não tinha ido lá parar por ser portador de qualquer demência.

Pude conhecer pessoalmente Valentim cerca de um ano depois, na Primavera de 1982, por breves momentos, já muito combalido pela doença, e alvo do sorriso sarcástico da enfermeira-chefe Rosa de Lurdes, que exibia diante do meu olhar atónito desenhos com pares a dançar, executados por ele e espalhados pela cela. O que então percebi dele confirmou-se pela leitura de uma outra entrevista, feita em 1968 pelo jornalista Luís Oliveira Nunes.

Nunca mais pude esquecê-lo nem abafar o sentimento descoroçoante que desde então me acompanhou e que só ia aumentando à medida que descobria os pormenores terríveis da sua biografia. Valentim é uma daquelas pessoas que fica para a história exclusivamente pelo dolo que lhe foi causado. A vida anterior ao internamento é bastante obscura, sobretudo no que respeita à carreira brevíssima – mas também falta pesquisá-la devidamente. Escasseiam as provas documentais da sua participação em espectáculos de revista. É certo que teve aulas com a professora alemã Ruth Aswin (e não Ruth Walden, a partenaire do bailarino Francis Graça, como erroneamente indiquei noutro lado), actuou em Espanha, que atravessou travestido de freira em fuga à guerra civil, e passou pela Alemanha nos primeiros anos do Terceiro Reich, de onde foi expulso na sequência do que parece ter sido uma disputa de camarim associada a um episódio de toxicodependência. As crises de fúria incontrolável que começaram na delegação da PIDE no Porto, onde foi detido à chegada para averiguações, determinaram uma funesta perícia psiquiátrica no Hospital Conde de Ferreira, que lhe condicionou o resto da vida. A família – só a irmã Ester, detestada pelos médicos, o terá protegido – acaba por abandoná-lo no Hospital Miguel Bombarda, após uma cena de agressão a uma senhora indignada que o terá surpreendido em drag no WC das mulheres de um local público. Internado definitivamente em Janeiro de 1940, com o exclusivo diagnóstico de “Psicopatia homossexual. Pederastia passiva”, o director do Hospital decidiu fazê-lo leucotomizar em Junho de 1948 no Hospital Júlio de Matos, decerto para verificar se a operação modificava a orientação sexual, com o desconhecimento e à revelia do seu próprio médico assistente, que o desaconselhava e que pôde verificar que a intervenção lhe destruiu faculdades sem em nada ter afectado a sua sexualidade. O que desmente a ideia feita segundo a qual a leucotomia pré-frontal de Egas Moniz (que, acredito, ele nem a teria recomendado em casos clínicos como o de Valentim) não foi usada em Portugal com fins de mero controlo social, ao invés do ocorrido em massa nos Estados Unidos da América. Foi, sim.

Quando fiz investigação no antigo hospital, os estudantes que trabalhavam comigo, gays assumidos, não acreditavam que no nosso país pudesse ter acontecido isto a um homem gay, só pelo facto de o ser. Mas tanto era possível acontecer que, nos anos de 1930 e 1940, aconteceu. Até à morte em 1986, no seu gueto de um homem só, por não ter mais para onde ir nem quem o quisesse. Os poucos testemunhos respeitantes a Valentim não são simpáticos (caso do escritor António Lobo Antunes), para não dizer repugnantemente homofóbicos (caso do jornalista Leal do Zêzere). Sobrevivem no espólio do Hospital Miguel Bombarda várias fotografias de Valentim, feitas em diferentes épocas, além de alguns desenhos seus e, possivelmente poucos dos objectos pessoais com que forrava as paredes do quarto, como a protegê-lo de uma vida inóspita que, por todos os lados para onde se virasse, só soube fazer-lhe mal. Uma versão, para pior, do mesmo que nos foi feito a todos.

António Fernando Cascais é investigador e docente no Departamento de Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa.

Valentim de Barros foi bailarino e esteve internado no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, em Lisboa, entre 1949 e 1986.

 Ilustração de André Murraças.

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