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José Carlos Tavares. Um nome sem me soar a passado, com quem troco algumas mensagens a propósito do recém-criado Queerquivo. Um pouco de conversa e percebo que fez parte do Grupo de Trabalho Homossexual. O GTH era um dos grupos que me lembro de ver na TV e revistas, no pouco destaque que o movimento LGBT português tinha nos media dos anos 80/90.

Propus ao José que alguém escrevesse sobre ele. Fazia todo o sentido para mim haver uma entrada que registasse – e não esquecesse – este grupo e o seu trabalho. Como acabei por não lhe encontrar um “marido” que escrevesse sobre a sua importância, eu próprio lhe enviei algumas questões. De repente, quis saber mais sobre aquele grupo que pintava murais – era disso que me lembrava.

O GTH foi o primeiro grupo activista organizado dentro do Partido Socialista Revolucionário (PSR), aberto não só a militantes mas a toda a gente. Surgiu em 1990 por iniciativa do José, diz-me o próprio, e como revolta pessoal por ver pessoas a serem discriminadas na família, na escola, no trabalho e pela vida fora. “Era uma época em que os sectores mais conservadores e reaccionários procuravam fazer dos gays um dos grupos responsáveis pela SIDA. Era preciso lutar contra a SIDA e procurar destruir este vínculo. Era preciso trazer para o domínio público as palavras ‘gay’ e ‘lésbica’, que tanto assustavam a sociedade em geral, como gays e lésbicas em particular. Era preciso dar resposta a todas as formas de propagação da homofobia. E afirmámos que não éramos doentes, porque ainda havia e há esta ideia. A sociedade precisava de tomar consciência, os gays e as lésbicas precisavam de se organizar, de se tornar uma comunidade. Nas escolas pouco ou nada se falava das sexualidades e, quando se falava, era da heterossexualidade, como a única forma de exercício desta. Tínhamos que ir às escolas fazer debates, onde estava sempre um padre ou um psicólogo na mesa”.

Penso no que o José me diz e penso no que mudou, se mudou e como. “No PSR, tínhamos apoio para nos construirmos como grupo de defesa de gays e lésbicas, ao contrário de outros partidos. Foi importante colocar o activismo logo de início como uma questão política”. Li algures que só em 1982 tinha sido despenalizada a homossexualidade e faltava fazer tudo. “Havia um grande vazio legal, havia abusos policiais, humilhação. Não havia a quem recorrer. Houve casais, que tendo um morrido, o outro ficava à mercê da família do falecido, do senhorio e de outros. Era preciso reconhecer social e politicamente as famílias constituídas por pessoas do mesmo sexo, era preciso o acesso à PMA [procriação medicamente assistida]. Ganhar o espaço da rua, lutar contra o gueto em que vivíamos, não por escolha própria”, escreve-me.

Viajo com o José na minha cabeça a essas noites sem Internet, e portanto sem e-mails, Facebook ou Grindr. Eram noites onde todos os gatos eram pardos e onde imagino o medo das agressões físicas e verbais, onde raramente se via alguém a manifestar publicamente afecto. Ainda assim, entrámos nos bares, nos grupos de luta contra a SIDA, onde o José anunciava a ideia e convidava as pessoas para aparecerem às sextas-feiras na sede do PSR, para conversar e discutir como avançar. Depois houve o passa-a-palavra por quem chegava. E, quando demos por isso, era muita, mas muita gente.

E o que veio daí? O GTH fez murais, debates em escolas, alguns com a presença de Miguel Vale de Almeida, Raúl Iturra, Francisco Teixeira da Mota, João Nabais, António Gomes da Costa, Eugèni Rodriguez, Alfredo Frade. Fizeram-se acções de rua contra os anunciados corte no AZT [medicamento dado aos seropositivos] por parte do ministro Arlindo de Carvalho do Governo de Cavaco Silva, contra uma campanha da Comissão de Luta Contra a SIDA que defendia a família tradicional como solução, contra a significação das palavras homossexual e lésbica nos dicionários da Porto Editora, debates nas televisões, entrevistas. “Quando o Sérgio Vitorino, mais tarde, me substitui como porta-voz, o GTH começou a defender a questão das identidades transsexuais. Começámos a desfilar como grupo, com faixas nas manifestações do 1º de Maio. Lembro-me que, da primeira vez, a CGTP ficou muito embaraçada com a nossa presença”.

Vou mais fundo nessas noites e imagino-me a ver os espectáculos de travesti, as peças de teatro como o Cabaret das Virgens (que efectivamente vi!), peças com o João Grosso, o Teatro da Graça, a Casa da Comédia. Sítios a que, se fui, terá sido com os meus pais. E onde sentia o ambiente que, mais tarde, me diria que eu sempre pertenci ali.

E queria muito ter estado naquela famosa noite do primeiro Pride, com o Al Berto a ler poemas entre números de travesti. Eu não estive, mas o José esteve. “O GTH sempre festejou o Pride, com festas abertas na sede do PSR. Essa festa foi a nossa primeira festa num espaço diferente. Foi muito bom. As pessoas estavam felizes e sentiram-se a celebrar o orgulho de serem quem são. O Al Berto era uma pessoa muito querida que, ao saber do que estávamos a procurar fazer, logo se disponibilizou”.

Olhando para trás, foi um empurrão que ali se deu. “As pessoas não estavam organizadas, a comunidade como comunidade não existia, o medo era muito e quem dava a cara sem ter rede pagava um preço bem elevado”. Penso nos dias de hoje, onde estamos. O José diz aquela frase batida mas certíssima de que não se pode dar as coisas como seguras.

Texto e ilustração de André Murraças. Tem 42 anos, vive em Lisboa. Gosta de ovos Benedict. Quando escreveu este texto, estava a ler Less, de Andrew Sean Greer. Não gosta de ar condicionado.

José Carlos Tavares nasceu em Angola, veio para Portugal em 1974. Fez onze anos num campo de fuzileiros em Luanda, dos quais não se lembra. Trabalhou como operário e numa agência de publicidade. Hoje faz construções e manutenções de jardins e pátios. Vive numa relação há 34 anos e espera casar em breve.

O GTH foi criado em 1991 no seio do Partido Socialista Revolucionário (PSR).

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