Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Cópia de Cópia de Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Blue and White Girl Photo Valentines Day InsVibrante, desassossegado, sempre insatisfeito com os lugares onde vivia. Falava de “exílios”, queixava-se permanentemente de Oxford, de Bruxelas. Exilado de si mesmo, o Luís Miguel Nava era um dos seres mais agregadores que já conheci. Acolhia com grande entusiasmo novos amigos no seu círculo e, a todo o momento, estava pronto para estabelecer conexões entre eles. Passados todos estes anos, lembro-me muitas vezes do Luís Miguel agarrado ao telefone. Lembro-o em gabinetes, em salas ou em cabines telefónicas, no tempo em que se falava muito nas cabines… Se o Luís Miguel era assim, antes de partir para o estrangeiro, naturalmente que esta sede de convívio se intensificou quando saiu do país. Nos hotéis, quando estava fora, ou em casa, vi-o tantas vezes a percorrer a agenda e a fazer telefonemas sem fim. Combinava encontros para um lanche, para um breve café, para o jantar… Quando vinha a Portugal, os dias eram planeados ao pormenor, numa ávida busca de amigos. Precisava dessa conexão. E também havia, dentro dele, poços muito fundos.

As cartas eram outro dos modos de se conectar com o mundo. Trocámos muitas cartas: falávamos de literatura e de viagens. E de coisas mais ou menos sérias, mais ou menos banais. Às vezes, o tom das cartas que ele enviava era bastante sombrio, mas extremamente lúcido. Aproveitava todos os pretextos para vir a Portugal. Uma ou outra vez chegou a equacionar a hipótese de se fixar de novo aqui; as hesitações, no entanto, pesavam demasiadamente. Havia sempre viagens no horizonte e, contudo, não o vejo como nómada.

A capa de Vulcão, o seu último livro, publicado em 1994, reproduz uma aguarela de Diego Rivera (Vulcão em Erupção), escolhida pelo próprio Luís Miguel. Pode ver-se aí um reflexo óbvio da concretização de uma viagem com que sonhara durante muito tempo. Mas, como afirma numa carta que me enviou de Bruxelas, no início desse mesmo ano, a sua geografia mais funda, a geografia poética, foi-se tornando cada vez mais uma geografia interior: “Livro, haverá em breve, embora ainda não de relatos de viagem, mas sim de poemas. Intitular-se-á Vulcão, no que estará implícita uma pequena homenagem ao México, onde aliás escrevi dois dos vinte e quatro textos que o irão compor (sem que, evidentemente, neles haja qualquer indício dessa circunstância: a minha geografia poética é cada vez mais interior)”.

A sua poesia reflecte as suas vivências, transcendendo-as, naturalmente, como toda a arte. Ele está ali inteiro. E, se não escreveu uma poesia de militância gay, a nítida dicção homoerótica da sua obra traduz a verdade com que ele viveu os seus dias e a sua literatura (que não era para ele, de maneira nenhuma, um adereço). Integrava o circuito gay na naturalidade da sua vida quotidiana e social. Lamentava que não se conseguisse falar nas discotecas, quando havia um grupo maior que, a seguir a um jantar, ou a um qualquer encontro, para lá se dirigia. Acompanhei-o vezes sem conta, no Porto, nas paragens obrigatórias no Bustos e no Moinho de Vento, e em Lisboa, no Frágil ou no Finalmente. E sobretudo no Bric: como ele gostava de interpelar a D. Emília, quando ali chegávamos! Nesses anos 80, lembro-me de um encontro nosso com Cesariny. À entrada do Finalmente, este fazia as honras da casa, cumprimentando as pessoas que chegavam. Recordo-me também de ter mediado, através de um amigo, a ida dele a um festival gay em Roterdão, onde participou a ler poesia (juntamente com o Mário Cesariny). Mas o Luís Miguel gostava de viver uma liberdade que não se circunscrevia aos circuitos dos bares e discotecas. Nas viagens, nos lugares mais cosmopolitas ou nos cantos mais remotos, era sempre o mesmo: excessivo, provocador, bem-humorado. Adorava contar histórias e eram extraordinárias as imitações caricaturais de pessoas amigas e conhecidas. Loquaz e sardónico, era implacável face à mediocridade. E não tinha contemplações em relação à hipocrisia: arrasava, com o seu irónico desdém, todos aqueles que, protegidos nos seus pequenos armários, eram hábeis lançadores de bocas homofóbicas.

Em algumas cartas, aproximava-se do tom das conversas repletas de humor. Numa delas, que me foi enviada numa ocasião em que mudei de casa, começando por apresentar os votos de boa estada na minha nova morada, aproveitou para efabular um breve relato cheio de imaginação, propondo-se “desembarcar em Braga com um contingente de jovens árabes sequiosos das maiores luxúrias” (Outubro de 1989). Na verdade, era ao vivo que o Luís Miguel gostava de contar histórias. A propósito de uma ida a Marrocos, escreveu: “Trago evidentemente muitas histórias, de que o meu diário guarda, dentro do possível, o registo, mas prefiro contar-tas quando estivermos juntos” (Janeiro de 1991). Se as viagens começam por ser a consequência imediata do sufoco permanentemente sentido nos locais onde trabalhava, o desejo de fuga acabava por ter um alcance muito profundo. Na ideia de viagem contém-se uma espécie de utopia, uma mitificação que recebe um nome: “Sul”. Essa ideia do Sul vai sendo cada vez mais associada a um lugar concreto – Marrocos. Antes de Marrocos, pensou instalar-se noutros lugares, embora com um carácter menos definitivo, como foi o caso da Tunísia ou do Egipto. O Norte de África tornou-se uma grande obsessão (nos últimos tempos de vida passou uma longa temporada em Marrocos), espaço idealizado, lugar onde tudo se harmonizaria, longe do coração roído da Europa. Se nessa projecção mitificada agregou um conjunto de referências literárias (Gide, Genet, Paul Bowles), ele tinha ideias pessoalíssimas para esse território sonhado, muito além dos lugares-comuns.

Partilhei muitas aventuras com o Luís Miguel, em muitas viagens. Com a distância, penso que talvez tenhamos vivido situações arriscadas (por exemplo, em Bruxelas, no bairro árabe). Na altura, eu não tinha essa noção. Quando penso nesses dias, ocorre-me com frequência um título emblemático de uma das prosas do Eugénio de Andrade de que gosto particularmente: “Excessivo é ser jovem”. Foi através do Luís Miguel que conheci o Eugénio, antes ainda de ter vindo viver para o Norte. E quando o Luís Miguel vinha a Portugal, as idas a casa do poeta, no Porto, faziam parte de uma rota obrigatória. Fui lá muitas vezes com ele. Hoje vejo como são tão exactos os versos que o Eugénio de Andrade lhe dedicou: “Dizem que foste tu / a escolher a violência / da tua morte, num acorde perfeito / com os teus versos. Não é verdade: / tu sabias que nenhum inferno / é pessoal, por isso procuravas / um rio onde ardesses / para voltares a nascer longe da terra. / Apenas isso – o resto é merda”.

Os traços que apresentei neste esboço talvez tenham privilegiado o retrato em movimento. Quem conhece a poesia do Luís Miguel Nava sabe das funduras, do que nela existe de violenta escavação. Na verdade, as imagens que dele retenho com mais intensidade devolvem-me o seu rosto em concentração. Lembro-me muitas vezes do Luís Miguel com um pequeno bloco na mão, a tomar notas. Pausadamente. Fixo essa imagem. Uma das recordações mais felizes que guardo é a de uma estada em Londres, em 1984 ou 1985. Sei que foi no mês de Junho: eu tinha ido visitar o Luís Miguel a Oxford. Resolvemos, então, ir passar alguns dias a Londres. Divertimo-nos muito nesse período: o périplo pela noite gay, os concertos, as tardes nos parques. Acho que também nunca me senti tão próximo do que foi o seu laboratório poético. Nas tardes em que descansávamos nos jardins de Kensington, ficávamos por vezes demoradamente em silêncio por bastante tempo. Lembro-me do pequeno bloco que ele sacava do bolso para escrever notas parcimoniosas: frases ou versos. Falava depois das suas obsessões, dos seus fantasmas. Da escrita.

Carlos Mendes de Sousa é professor de Literatura. Co-director da Fundação Luís Miguel Nava e da revista Relâmpago. Gosta de botânica e de jardinagem.

Luís Miguel de Oliveira Perry Nava nasceu a 29 de Setembro de 1957 em Viseu. Foi brutalmente assassinado em Maio de 1995, no seu apartamento de Bruxelas.

Ilustração de André Murraças.

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