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Haverá, por certo, uma mão cheia de datas e acontecimentos, estados de alma, maravilhamentos e frustrações que me conduziram a este homem – Leitão de Barros – numa tarde, algures no início dos anos 1990. Não as sei precisar. Digo homem, e não realizador, porque uma coisa (não) empata a outra e, neste confronto, a história é mesmo um osso duro de roer. Não o afirmo de ânimo leve, porque Leitão de Barros (1896-1967) foi o realizador de Camões (1946), Inês de Castro (1944), Bocage (1936), As Pupilas do Senhor Reitor (1935) e de tantas outras obras de calibre semelhante que me “aborreciam” as tardes de Domingo, quando não tinha outra saída senão ficar a olhar para a televisão, entalada entre umas “tias” velhíssimas que viviam em nostalgias do passado.

A estas obras juntam-se outras de carácter propagandístico mais evidente, que não nos deixam grande margem para dúvida: Leitão de Barros era um realizador do regime. Além de filmar, organizava os Cortejos Históricos, as Marchas Populares de Lisboa e outras “diversões” destinadas a alienar e “instruir” o povo; como jornalista (que o era, com grande destaque) provocou (e exaltou) a “descoberta” de que Salazar apareceria representado nos Painéis de São Vicente. E assim se apresenta Leitão de Barros. Em todas as biografias, é esta a informação que se encontra. Ponto.

Recuando até a infância (a minha). O filme Camões: “uma estucha”, que é palavra de época; Vasco Santana e Beatriz Costa: eu gostava da Canção de Lisboa e cantava (e ainda canto) as músicas do filme; no Pai Tirano: gostava do par Ribeirinho/Santana; Não achava graça ao António Silva. Adorava a Mirita Casimiro (a Maria Papoila do Leitão de Barros). E assim era o cinema português. O 25 de Abril tinha sido “ontem”. Tudo isto era enquadrado à época, entre os cenhos franzidos que gritavam “faasscismoooo” e um enternecimento saudosista e suspirado sempre acompanhado de um “nesta época é que os filmes e os artistas eram bons…”. Mas, contradições à parte, e porque a Revolução tinha sido “ontem”, a minha liberdade levou-me, nas tardes de Verão, de musical em musical, à bela Ginger Rogers a rodopiar, às pernas impossivelmente longas da Cyd Charisse, ao sapateado delirante da Ann Miller, e depois o “mundo” seguiu espampanante por aí fora, longe do olhar dos adultos, sem grande controlo nem orientação parental. A adolescência foi outra história e, depois da Garbo no Queen Christina e da Marlene no Morocco, a coisa complicou-se (ou talvez não).

Tudo isto não é dispersão, não me estou a esquecer do Leitão de Barros. É que nada do que via nos filmes americanos (e não só, claro… o Riso Amaro, meu Deus…) ia encontrar nos filmes portugueses. Nem nos filmes, nem noutro lado qualquer que me pudesse interessar, diga-se de passagem. Com um pouco de reflexão percebi que, apesar da Revolução ter sido há tão pouco tempo, a ditadura ainda estava muito presente.

Já não me lembro qual foi a primeira vez que ouvi falar dos homossexuais do Estado Novo. Um momento inusitado com certeza… Eu já andava desconfiada de certos casos, mas com quem partilhar as minhas suspeitas? A informação chegou primeiro sem nomes, depois lá começou a pingar devagarinho e fui ficando mais atenta. Era, ainda nos anos de 1980, um segredo. Quando surgia nas conversas era sempre em forma jocosa. E era uma das formas de insulto mais praticadas. A Ditadura tinha perseguido os homossexuais, prendera-os, torturara-os, exilara-os, lobotomizara-os. Daí o segredo. O medo, sempre o medo. Mas medo era coisa que eu não queria, nem podia aceitar. Eu queria compreender, compreender-me. E assim, lá foi surgindo, a conta-gotas, o Botto, o Villaret, o Cesariny e outros senhores, casados e com filhos. Mulheres, quase nenhuma. Depois surgiu o nome de Fernanda de Castro, mulher de António Ferro. E assim chegou-me o nome de Leitão de Barros como um “protegido” destes dois “figurões”. Ao que ouvia dizer, era conhecido nos meios homossexuais de Lisboa por “distribuir” dinheiro aos rapazitos da Rua do Arsenal. “A sério?!…”, lembro-me de pensar, com um sorriso. Mas nenhuma referência à sua sexualidade surge (até hoje) em alguma das suas biografias. Um segredo… Será?

E é assim que, numa tarde do início dos anos 1990, já eu estava na escola de cinema, durante uma aula, este segredo me entra pelos olhos dentro. Era o filme A Severa (1931), história bem conhecida da fadista que viveu e morreu cheia de fado e paixão. Porém, bem no meio do filme, desgarrada de tudo, avulsa e gratuita, surge uma cena de um campino a dançar o fandango em cima de uma mesa. Panorâmica para cima e para baixo a varrer o corpo de um rapaz numa agitação intensa. O professor, o Paulo Rocha (que saudades…), desinteressado de pudores, mostrava a cena vezes sem conta e ia desfiando um rosário de histórias de sexo proibido em anos de repressão, condensadas numa expressão inaudita em contexto de aula: “Estes gays do Estado Novo!…”.

E assim a História do Cinema Português ganhou uma dimensão extra, que me entusiasmava: a do corpo e do impulso incontrolável de o fixar em película, e, mais importante ainda, de o mostrar no ecrã, para quem o quisesse ver, entender, e, de certa forma, possuir.

De seguida vi Lisboa Crónica Anedótica (1930), que além de ser uma das maiores declarações de amor à cidade alguma vez filmadas, oferece, mais uma vez de forma desbragada, uma cena na corveta Sagres em que os marinheiros se lavam no convés na mais perfeita alegria (e sem estranhar a proximidade da câmara). Diz Jorge Brum do Canto que “(…) de todas as preciosidades que o filme contém, a mais rica, a mais inédita, é sem dúvida, a passagem a bordo da corveta Sagres, instante cinematográfico que perdurará na mente de todos quantos o virem”. Pois claro! Aliás, a Sagres também “tramou” Jorge de Sena, que em 1938 foi expulso da mesma supostamente por “actos” homossexuais.

Mas o exemplo maior de um certo olhar “clandestino” de Leitão de Barros estará no filme Maria do Mar (1930). História da Nazaré, tragédia do mar, melodrama de amor maldito. Um dia, Maria é salva por Manuel de se afundar. Mas não sem que antes nos seja oferecida uma longa sequência onde um grupo de rapazes se despe e desfruta os prazeres do sol e da areia. Paralelamente, um grupo de raparigas, em combinação, galhofam, remando, numa agitação de coxas e peitos. Por fim, lá vem o acidente e o salvamento. Novo pretexto para mostrar o corpo exangue da rapariga e o torso do rapaz extenuado.

Apropriação do cinema soviético, dos corpos da revolução, plásticos e viris, e prenúncio dos dramas masculinos do cinema italiano, o cinema de Leitão de Barros não é inocente. O realizador sabia ao que vinha, sabia o que estava a fazer e como o estava a fazer. Há nele uma nítida atitude de transgressão. Um olhar desviante.

Poucas vezes o cinema português das primeiras décadas do século XX foi assim. Há os filmes do Reinaldo Ferreira, e pequenos momentos em filmes aqui e ali, que, por vezes, só com muita vontade e imaginação se poderão aproximar do gesto produzido por Leitão de Barros. Aquele punhado de cenas e sequências que encontramos nos seus filmes, por vezes desgarradas da narrativa, outras vezes enxertando acções e distendendo-as no tempo para produzir um efeito erótico; o olhar “estranho” que se infiltra; um certo exibicionismo que diz “aqui estou a mostrar-vos o que realmente me interessa!”. Que gesto é este, senão um verdadeiro gesto queer?

Como seria expectável, depois de A Severa, os filmes de Leitão de Barros nunca mais foram assim. É verdade que Inês de Castro é excessivo, é Eisenstein, é Sternberg, é camp, mas algo se perde. Talvez Leitão de Barros não tenha ficado, aos olhos da história, muito bem “no retrato”. No entanto, e porque ainda hoje “não se sabe” se Leitão de Barros seria homossexual – ou não se “aceita a insinuação” (o que vai dar ao mesmo) -, a sua história conta também a história de um regime repressivo que ainda hoje tem marcas profundas, que permite que a homossexualidade possa continuar a ser muitas vezes uma acusação e uma forma de insulto.

Por tudo isto, gosto sempre de falar de Leitão de Barros. Não só porque era um realizador fantástico, mas porque mostra como podemos construir o nosso próprio maravilhamento e, mais importante, que não podemos permitir que as nossas “transgressões” sejam reprimidas.

Marta Pessoa é realizadora e vive em Lisboa. É leitora e fã da escritora Sarah Waters.
José Leitão de Barros foi jornalista e realizador de cinema.
Ilustração de André Murraças.

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