Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Cópia de Cópia de Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Copy of Blue and White Girl Photo Valentines Day Ins
José Carlos dos Santos Mendonça. Carlos Mendonça. “O Mourinho das Marchas”, epíteto que detestava. Conheci-o quase por acaso, quando estava a fazer a investigação que depois resultou no livro Histórias da Noite Gay de Lisboa. Tinha de começar por algum lado e lá fui, até à aldeia de Santa Susana (São João das Lampas) para entrevistar aquele que eu pensava ter sido (apenas) o primeiro gerente da discoteca Trumps, em 1980. Andava à procura de histórias daquela Lisboa que, mesmo com uma revolução às costas, tardava em abrir-se.

Carlos Mendonça tinha estado à frente do Trumps durante apenas dois meses, mas ajudou a fixar a identidade do local. Deu o nome à casa (indo buscar influências a outra discoteca badalada de Londres), decorou o espaço e, principalmente, ajudou a congregar gente da música, da moda, do teatro e da televisão, a par dos boémios e de quem se aventurava na noite para descobrir e se descobrir. Não havia nada assim em Lisboa no virar daquela década. Era um caldo de gente que uns anos depois estaria pronto para mudar-se para o Frágil.

Recebeu-me numa casa rústica, acolhedora, resguardada da rua. O interior era cuidado e bem decorado, com uma mistura eclética de mobiliário, arte e recordações. Desligado o gravador, começaram os relatos que dariam para outro livro. As histórias de uma certa burguesia e elite artística de Lisboa e Cascais no Portugal do Estado Novo, entre as festas secretas no Estoril e o escândalo público que foi o “suicídio” de Carlos Burnay. Pelo meio, a Pastelaria Suíça (ponto oficial de encontro e de engate). Episódios e vivências atirados para o esquecimento porque, ainda hoje, há quem queira manter a privacidade dos envolvidos. Testemunhos que fazem parte da nossa História LGBTI, mas cujos relatos na primeira pessoa tardam em ser recolhidos.

A vida de Carlos Mendonça deu muitas voltas. O serviço militar obrigou-o a deixar a carreira de bailarino. Em 1964, mudou-se para Inglaterra, casou, foi pai. Trabalhou como figurinista na BBC, na Granada Television e na Paramount Films. Em Portugal, a partir de 1980, continuou ligado à televisão e ao teatro, pelo que, nove anos depois, de uma forma natural lhe chega um convite para ser figurinista das Marchas Populares – depois há-de ser autor das letras e coreógrafo. Há quem diga que se Leitão de Barros criou as Marchas, Carlos Mendonça inovou, levando para a Avenida um arrojo, imaginação, cores, figurinos e uma estética que os críticos diziam inspirada no Parque Mayer. Foi uma fórmula vencedora. Graças a si, Alfama obteve o primeiro lugar por 13 vezes. Repetiu a façanha por mais duas vezes com o bairro do Alto do Pina.

Carlos Mendonça queria ser lembrado pelas Marchas. Era esse o seu orgulho. A passagem pelo Trumps, por exemplo, achava que era apenas a consequência de ter vivido em Londres e de ter ido aos mesmos sítios que o Mick Jagger ou o Ringo Starr. Tinha mundo e personalidade – essa palavra que parece ter caído em desuso. Era dos poucos, daquela geração, que não tinha vergonha de ser e de se afirmar como era. Aos 74 anos, protagonizou uma denúncia inédita contra o Patriarcado de Lisboa, quando um cónego se recusou a fazer as cerimónias fúnebre a Carlos Salgueiro, seu companheiro há 36 anos e com quem se casara dois anos antes de falecer. Carlos Mendonça desdobrou-se em entrevistas para dar a conhecer o caso de discriminação em função da orientação sexual protagonizado por um padre. “Hipocrisia”, fartou-se de repetir. Ele, que conhecia bem os armários que remetiam para o silêncio, para o sofrimento e rancor, tantos e tantos da sua geração.

Rui Oliveira Marques é jornalista. Co-organizador do Festival Política e co-autor dos livros Má Despesa Pública e Má Despesa Pública nas Autarquias. Histórias da Noite Gay de Lisboa foi editado em 2017, um ano depois de Carlos Mendonça falecer.
Carlos Mendonça foi considerado, por muitos, “o Mourinho das Marchas de Lisboa”.
Ilustração de André Murraças.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s