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“Mas tu conheces? Que idade tens, rapariga?”. Não sei. Não sei realmente que idade tenho. Talvez seja das perguntas mais pertinentes que me fazem, na verdade.

O André Murraças estava longe de o saber. Talvez, na verdade, eu já tenha sido, ou devesse ter sido, do tempo dela, da Ruth Bryden. Não, não a conheço. Liga-me a ela apenas o abraço que gostava de lhe ter colado à pele. Não a conheço e não deixo de a amar, mesmo sem que perceba sempre a lógica disso, se a há. A verdade é que não, não a conheço e não deixo de lhe dar o espaço mental do meu sagrado feminino, a ela como só às que me fascinam e apaixonam todos os dias um pouco mais. Não a conheço e não deixo de a fazer em mim pintura de um encaixe.

Não a conheço, mas partilha as paredes dos meus sonhos com outras enormes a quem o meu coração ficou preso por um fio dourado, sem perceber porquê, apenas com a forte convicção que devia poder ter lá estado, no tempo certo. Se estive ou não, não sei. Talvez por isso me trespasse agora, me transborde para o grão intangível de que faço poesia, talvez esse seja o destino de amores que flutuam além do tempo. Não sei.

Sei que sem a conhecer, mais do que os raros vídeos à vista de toda a gente, habitou-me. Inspirou-me. Tornou-se signo, pedra basilar da construção daquilo que me atrai e me inebria e faz com que os dias sejam sempre mais que mera passagem, sem sequer eu dar por isso. Não me sentia, ainda não me sinto, nem sei se sentirei no direito de falar dela. Falo antes da pintura que eu faço dela. A demora deste texto por si só já denuncia este medo. Não quero passar da Ruth Bryden uma imagem menos fiel. Não tenho propriedade nem critério para tentar sequer, qualquer que seja a descrição. A pintura que eu faço dela, da pequenina janela por onde a vou descobrindo, é a de uma imensa força.

É a de uma incomensurável capacidade de amar, para lá de tudo. Um pináculo de delicadeza, a belíssima elegância que embala o vulnerável pano de fundo comum aos que são grandes demais para caber no mundo que os rodeia.

A minha pintura da Ruth Bryden é a de um ser incrivelmente empático, incrivelmente magnético. Um cisne de cristal que não cessa o bailado na sua caixa de música – que teria merecido a suavidade da maré calma, que não veio, onde repousar as asas. Sei apenas que me ultrapassa aquilo que nela puxa o meu coração à flor da pele, denominador comum ao aglomerado feminino que é, tantas vezes, o culpado por eu ser poeta.

Sei apenas que este todo inexplicável, por muito absurdo e lírico que possa ser, permanece em mim, liberta-me, aflora-me. Desconheço-lhe a razão. Mas a ela, ou à pintura que faço dela, só lhe posso agradecer ser parte da mesa redonda dos meus encantos. Sei apenas que gostava de poder ter-lhe dado a mão.

Inês Marto tem 22 anos, vive em Lisboa, é escritora, gosta e até depende de boa música, não gosta mesmo nada se deitar cedo.
Ruth Bryden era um travesti da noite lisboeta. Nasceu Joaquim Centúrio de Almeida.
Ilustração de André Murraças.

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