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Porquê Frederico Lourenço?

Apenas o conhecia como “o tradutor da Odisseia, da Ilíada e da Bíblia” ou, recorrendo a um lugar-comum, “o gay que traduziu a Bíblia do grego antigo”. Não é fácil destacar o gay, a bicha ou o paneleiro da sua própria obra. Facilmente invocamos Reinaldo Arenas mas é o redutor “gay” que primeiro nos vem à cabeça. O mesmo se passa com Allen Ginsberg. A homossexualidade é pungente, penetra a obra. Mas esta penetração também fala ao ouvido e ajuda. Acima de tudo, orienta.

Aventurei-me na obra de Frederico Lourenço num momento muito particular da minha vida. Longe de me estar a descobrir como jovem homossexual, urbano, de classe média (como, acredito, grande parte dos que escrevem para este arquivo), estava farto de ausência de romantismo, de aplicativos mais ou menos revoltosos, sexo assumidamente fácil e um desencanto em geral por um estado de vida assumidamente genético e permanente. A ausência de romantismo mata por dentro, com sequelas ainda hoje vividas.

Li o Amar Não Acaba e o A Máquina do Arcanjo no espaço de duas semanas, compulsivamente, entre intervalos do trabalho e viagens em transportes públicos. Seguiu-se o volume único de Pode um desejo imenso. Entre dúvidas existenciais, aventuras sexuais e paixões “do caixão à cova”, Frederico, ao seu jeito biograficamente trapalhão e desengonçado (no bom sentido), preencheu, inadvertidamente, uma peça que teimava em faltar no meu puzzle referencial.

Podia viver numa redoma intelectual e social, uma flor de estufa criada no Monte Olimpo da intelectualidade portuguesa, mas a sua experiência era terrena. Mostrou-me que as experiências e as vivências eram transversais, correntes e comuns. Imprimiu normalidade ao meu pensamento. E sabe lá a entidade divina o quão precisava disso….

Miguel M. gostava de viver num filme de Pedro Almodóvar. Aprecia, em igual medida, Stockhausen e reggaeton.
Frederico Lourenço é escritor, tradutor e professor de grego antigo. O seu romance Pode um Desejo Imenso tira o título de outro poeta português. “…Um pequeno occupational hazard de quem lê muito Camões”.
Ilustração de André Murraças.

 

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